A Sementeira Vermelha

de Lara Fernandes

 

O meu avô dizia que a terra tem memória. Não como nós — não feita de lembranças lineares nem de histórias que se fecham —, mas uma memória lenta, subterrânea, que mastiga séculos antes de responder. Eu achava que era só uma frase antiga para dar peso ao silêncio.

Até ao ano da seca. O chão começou a falhar.

As fendas abriram-se como se a terra tivesse esquecido a própria função de ser chão. O ar que saía delas vinha quente, com cheiro a metal aquecido e a algo azedo, leite esquecido, abandonado. O avô não estranhou. Apenas ficou mais atento ao que não se ouvia.

Foi ele quem disse primeiro que o solo estava a «aprender outra coisa». Não explicou. Talvez não soubesse.

Uma tarde, vi-o ajoelhar-se no campo. Não era devoção, mas um reconhecer. Encostou a mão à terra com a delicadeza de quem toca numa criatura que já o esqueceu. Ficou assim, imóvel, e murmurou:

— Está a tentar lembrar-se.

A última palavra saiu atrasada.

Foi o cão do vizinho que percebeu primeiro.

Tico, um rafeiro velho, rondava sempre o quintal. Nesse dia, aproximou-se do campo e rosnou para as fendas, de pelo eriçado, vendo algo que nós não víamos.

O avô ficou parado. O cão avançou.

E então, o chão mexeu.

Não um tremor, um movimento muscular. Algo por baixo contraiu. A fenda abriu-se mais e algo escuro, húmido, com textura de raiz e carne, esticou-se como um dedo a testar o ar.

O cão ladrava, mas o som saiu falhado. Tentou recuar.

A coisa agarrou-o. Enrolou-se à pata traseira com precisão quase cirúrgica. O uivo foi cortado por um estalo seco. O corpo desapareceu, o solo abrindo espaço para o receber.

O avô não se mexeu. Eu gritei.

O campo ficou quieto demais.

Quando o vento voltou, trouxe um som baixo, uma tentativa de latido. O ritmo estava errado. O timbre… não era de animal.

Nessa noite, ouvi o campo.

Não era vento. Não era inseto. Era uma tentativa de ritmo, batidas imitadas por alguém que nunca ouviu um coração. Encostei o ouvido ao chão da casa. A vibração subiu pelo osso da mandíbula, o campo testando frequências dentro de mim.

O avô disse para ignorar. Mas, quando passou por mim, piscou com atraso. Um piscar lento, desfasado.

No dia da «rega», chamou-me cedo.

O céu parecia muito limpo, redesenhado. Entregou-me uma faca pequena. Não houve instrução, só expectativa.

Quando cortei a palma da mão, senti dor. Mas, antes dela, houve reconhecimento. O solo a responder antes de o sangue cair.

E quando caiu, o chão abriu-se.

Não uma fenda, mas uma abertura orgânica, húmida, uma boca que ainda não o sabe ser. O sangue foi puxado depressa, como se a terra já me conhecesse.

Senti o corpo atrasar-se. Não era fraqueza. Era deslocação. Partes de mim pareciam ter sido movidas ligeiramente para o lado.

O avô olhou para o solo com atenção excessiva. E hesitou:

— Vai… crescer.

O «vai» veio arrastado.

Nos dias seguintes, o campo levantou vida.

Os caules romperam o solo como veias expostas, numa cor que não se via diretamente, mas que lembrava carne aberta, húmida, com a superfície de algo forçado a escolher a forma de raiz. Alguns tinham saliências, quase articulações. Mas o pior não era o crescimento. 

Era a imitação.

Um caule inclinou-se para mim. No dia seguinte, repetiu o gesto, com atraso.

Outro tentou ladrar. O som saiu errado. Um eco do cão.

O avô começou a mudar também. Pequenas coisas. A forma de pousar as mãos. Frases com palavras que nunca lhe ouvi. Outras que terminavam cedo demais.

Certa vez, disse:

— A terra corrige o que não está completo.

E ficou em silêncio, como se tivesse acabado de ouvir a frase.

No quarto dia, fui ao poço. Estava seco. Mas, lá dentro, havia som.

Não de água, mas também de algo que a reproduzia. Um fluxo irregular que tentava lembrar-se de como água soa num espaço fechado. Quando me aproximei, o eco alterou-se. Imitava.

Bati na borda. O som hesitou.

E então, ouvi um latido. Ou melhor, uma tentativa. O som subiu pelas pedras como um erro repetido.

Afastei-me. O poço não estava vazio. Estava a ensaiar.

Ao entardecer, os caules pareciam maiores. Ou talvez fossem as sombras, longas demais, o sol parecendo projetar uma versão atrasada da realidade.

O avô foi ao campo com um objeto antigo. Enterrou-o sem cerimónia. Ficou de pé, à espera de resposta.

Depois, disse em voz baixa:

— Desculpa.

A palavra saiu deformada.

Acordei com o corpo quente, não de febre, mas de calor no esterno, algo a respirar dentro do osso. Os olhos latejavam. O calcanhar formigava, como se tocasse algo por baixo da casa.

Por um instante, tive a sensação de que o meu pensamento não começava nem terminava em mim.

Fui à janela. Os caules já lá estavam.

Um pouco depois, repetiu o meu movimento de cabeça.

O avô apareceu atrás de mim, sem som. Olhou para o campo como quem observa uma coisa a ser corrigida.

— Não é colheita — disse. A frase saiu quase correta. — É um ajuste.

Pela primeira vez, senti um medo verdadeiro. Não da terra. Mas da forma como ela insistia em compreender. Como se fôssemos apenas um rascunho.

Agora, há noites em que o chão devolve pequenos gestos. Um suspiro que não fiz. Uma ideia que reconheço, e que chega antes de mim.

E o nome que ouço não é exatamente o meu. É uma variação. Uma tentativa. A terra a experimentar pronúncias.

E já não sei onde começa o meu raciocínio. Só sei que, às vezes, o sinto vir de baixo.

E não sei se ainda estou a pensar… ou se estou a ser corrigido.


SOBRE A AUTORA

Lara Fernandes

Lara Fernandes nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, em 1974, uns dias antes do 25 de Abril. Três anos depois, a sua família mudou-se para Portugal, onde tem vivido desde então. Formada em Informática de Gestão, estagiou com uma bolsa em Programação e Multimédia em Coimbra, estabelecendo o início da sua carreira técnica como programadora informática de websites.

A vida de Lara é uma combinação harmoniosa de realização profissional, a paixão pela escrita, o amor pelos animais e o envolvimento familiar.

Já tem algumas publicações em várias coletâneas e revistas. É uma eterna aprendiza, movida pela curiosidade e criatividade. Com dedicação e entusiasmo, procura sempre novos desafios, explorando ideias, histórias e experiências que inspirem e conectem. O olhar atento e a mente aberta refletem o seu espírito inovador.


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