Mundo Espera

de Afonso Lucas

 

Os nossos corpos avançam no tempo com a idade, enquanto as nossas mentes geralmente tendem em ir para trás. Como um elástico, começamos num único ponto singular. Esticamos e esticamos e esticamos, até que um dia a pressão é demasiada e somos destruídos. Estar presente… esse é o truque. 

Procuro um carro na rua e encontro um dos anos noventa que me agrada. Os modelos mais antigos são os mais fáceis de fazer ligação direta. Não tenho paciência para arrombar a porta da maneira tradicional e uso o meu cotovelo para partir o vidro. O lado do condutor ficou cheio de estilhaços. O meu sangue jorra por toda a parte, e a comichão que faz incomoda-me.

Ponho o carro a trabalhar e conduzo até aos arredores da cidade. Procuro na rádio, como sempre, por sinais de vida. Tudo o que ouço é estática. 

«Continua tudo igual então…», digo para mim mesmo. «Seja.» Acelero o carro e meto a terceira, quarta, quinta… em direção a uma parede de betão.

 

* * *

 

Nem sempre acontece, mas desta vez senti-me a morrer. Senti o meu crânio a partir-se como um rebuçado na boca de uma criança faminta. Uma cortante sensação gélida atravessou-me a barriga quando as minhas tripas e sangue saltaram. Senti ligamentos e músculos a separarem-se do resto do meu corpo. A última coisa que vi, antes de tudo escurecer, foi o meu antebraço a propulsionar-se para longe, como um dardo feito de carne. 

Para mim, estar presente é exatamente o problema. Acordo mais uma vez, ainda vivo, e olho para o relógio. São duas da manhã e vinte e seis. São sempre duas da manhã e vinte seis. Algo ou alguém não quer que o tempo passe.

O carro que conduzia está estampado na parede de betão meio destruída, e eu estou intacto deitado a três ou quatro metros do carro, no meio do asfalto. Não há sangue, nem ossos partidos, nem músculos rasgados.

Decido andar. Nada melhor do que um passeio pós-suicídio para espairecer a cabeça. Caminho em direção à cidade e, pelo caminho, vejo vários carros destruídos ou virados. Ali está o Mercedes que conduzi de um parque de estacionamento abaixo, agora com o nariz esborrachado no meio da estrada. Um carocha também. Na altura, achei piada utilizar esse carro, mas foi só uma carga de trabalhos, porque o VW não bateu com o impacto que eu queria, e demorei muito mais a morrer. Também há uns quantos de marcas japonesas e afins, porque houve uma altura em que achava que a marca do carro poderia ser um fator decisivo para que algo, qualquer coisa, acontecesse. 

Não aconteceu. 

Pergunto-me quando foi a última vez que tive uma conversa com um ser humano? Talvez tenha sido num bar. Talvez fosse menos uma conversa e mais uma confissão absurda formada por onomatopeias mal compreendidas. Não sei. Francamente, não me lembro. Já me é difícil relembrar muita coisa. Alcancei a presença total. Isto não deveria levar-me a algum estado de espírito enaltecido?

A única coisa que ouço e que me corta a monotonia são ecos de uma dimensão de violência e profundidade imensa. Desde o momento em que o mundo parou que os ouço. São como um coro horrorizado, preso num poço em chamas. Não sei de onde vêm. Não sei quem são ou que querem. 

Corro na direção dos gritos, até ao centro da cidade. Os ecos crescem. Sinto-os a vibrar nos meus ossos; os cabelos na minha nuca levantam. Quando chego ao interior da cidade, no entanto, não está lá ninguém. Outra vez, sou só eu. Grito de volta até ficar rouco. Ninguém me responde. 

Estou ao lado de um banco, uma estrutura brutalista monumental e vejo-me no reflexo de uma janela espelhada. Tenho um ar impecável, mas que idade terei na realidade? Tendo em conta todo o tempo que passou… Anos? Décadas? Séculos não. Não pode. Talvez.

Os ecos continuam, como se estivessem a gozar comigo. A cada dia que passa, ficam piores. Já me passou pela cabeça que sejam pessoas na mesma situação que eu. Talvez estejamos desencontrados ou, se calhar, estão num plano diferente. Não nos conseguimos ver ou tocar, mas conseguimos ouvir-nos uns aos outros e à nossa miséria. Ou talvez sejam pessoas que conseguem ver aquilo que ando a fazer… a reagir às dezenas de carros acidentados, às centenas de tiros que dei a mim mesmo, às mil vezes que me atirei de um edifício. Tenho a ambição de, um dia, atirar-me da Torre Eiffel. 

O que é que fazemos quando um portátil ou um eletrodoméstico está a funcionar mal? Desligamos e voltamos a ligar. Haverá maneira de fazer isso com o mundo? Ou talvez seja como um televisor antigo. Talvez tenhamos de lhe dar uma pancada bem forte para que volte a funcionar. É possível que o meu impacto tenha de ser maior.

Tenho de alargar as minhas vistas. Podia apontar uma bazuca à Grande Muralha da China. Quem é que se importaria? Destruir uma cidade inteira, talvez. Podia ser divertido. Talvez perceba como utilizar armas atómicas, nucleares… quão incrível seria criar uma fissura no próprio planeta Terra? Talvez isso acorde o Universo. Pode ser a pancada que o espaço-tempo precisa. Tenho de esticar o elástico. Aproveito o tempo e, no caminho, vou lendo o Conde de Monte Cristo, sei lá. 

Afinal de contas, vendo bem, o mundo é só meu. Também não é como se alguém o estivesse a usar. E, se um dia acordasse e tudo tivesse voltado ao normal, e me condenassem por terrorismo internacional… Meu Deus, que dia feliz seria. «Condenamos-te a novecentos anos de solitária, ou à morte, ou ao que quer que seja. A ti, que te chamas…»

Enfim. Que dia feliz seria esse.

SOBRE O AUTOR

Afonso Lucas

Afonso Lucas é um jovem cineasta formado na Universidade Lusófona. É também um artista autodidata em ilustração, pintura e escultura. Tem uma paixão por literatura de vários géneros e de os explorar na própria escrita.


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