Clube de Leitura da Fábrica do Terror

Um resumo das duas primeiras sessões.

A 27 de julho, vamos falar de O Deus das Moscas. Já te inscreveste?

Para quem nunca participou num Clube de Leitura, os anfitriões querem deixar uma palavra de conforto: não há interpretações certas ou erradas de um livro (isto não é uma prova do exame nacional de Português) e a única exigência é que todos tenham lido a obra de que se vai falar.

Não interessa se optaram por uma edição traduzida, pelo original, ou pelo formato audiobook. Na penúltima quinta-feira do mês, a partir das 21 h, entramos no Zoom para falar de livros de terror.

Primeira sessão: um livro que (quase) toda a gente adora 

Sandra Henriques

A Maldição de Hill House, de Shirley Jackson, é um dos meus livros de terror favoritos (e do Neil Gaiman e do Stephen King também, por curiosidade). Reli-o para poder moderar a 100% a sessão de 25 de maio, a primeira do Clube de Leitura, e estava convicta de que todos tínhamos lido o «mesmo» livro.

Erro de principiante. Se, por um lado, concordámos no que estava mais à vista (a pressão mental e do luto de Eleanor Vance, a franca impreparação para experiências científicas do Dr. Montague e o sexto sentido apuradíssimo de Mrs. Dudley), por outro, tivemos discussões saudáveis sobre quem eram as nossas personagens favoritas (a minha é Mrs. Montague!) e as que nos tiravam do sério (não posso com a irmã de Eleanor).


Mas o melhor desta sessão, e o que me levou a reler algumas das passagens do livro com outros olhos, foi mesmo as diferentes teorias sobre o que realmente se está a passar naquela casa. E todas elas justificadíssimas com citações do livro. A pergunta «como é que eu não dei por isto antes?» ainda hoje me assombra.


Segunda sessão: um livro onde é difícil identificar o mal maior 

Pedro Lucas Martins

A Laranja Mecânica é garantidamente um livro violento. E ainda bem que o é, porque tem de o ser. A sua mensagem não passaria de outra forma. É também, graças a isso, um livro extremamente complexo, tanto no conteúdo como na forma. É uma obra que suscita perguntas e reflexões sobre a empatia, a liberdade, o livre-arbítrio, a nossa própria humanidade.

A moderação desta sessão a 22 de junho, a cargo da escritora e académica Patrícia Sá, permitiu-me, como anfitrião, recostar-me para ouvir todas as entusiasmadas opiniões e interpretações geradas pelo livro de Anthony Burgess — sobre as particularidades linguísticas do nadsat e da sua influência na leitura; sobre a adequação da resposta à violência, e de qual a maior violência representada; sobre o preconceito associado aos livros de conteúdo mais forte ou mais explícito; sobre diferentes finais e sobre histórias de amadurecimento, de desenvolvimento pessoal, de evolução e regressão social.

Comprovei assim, neste grupo, aquilo que senti depois de ler o livro pela primeira vez. Todos nós sentimos que Alex deve ser severamente castigado; e todos nós sentimos, posteriormente, que ele não merece tal castigo. Assim, parece-me que todas as personagens do livro são uma representação nossa. Tanto a sociedade corretiva/punitiva, seja por que motivo for, como o protagonista, Alex, que nos lembra da importância da liberdade, e da escolha que nos faz humanos, na mais extrema das circunstâncias.


Talvez não seja um livro para toda a gente, como se poderá dizer de muitos outros. Mas é um livro com uma boa história, diferente, que nos faz pensar. Não é isso que se pretende para um Clube de Leitura? Eu acho que sim. E acho que os outros participantes concordariam.


Próxima sessão: 27 de julho, O Deus das Moscas.

Inscreve-te aqui.