A Berma

De Élvio Ganança

 

Silvestre caminha sempre pela berma esquerda. Entre a casa da mãe e a serralharia, são vinte e oito minutos, contados pelos postes, e fá-los de manhã e ao fim da tarde, chova ou não, com a marmita numa mão e o corpo encostado ao rebordo do mundo. Na aldeia, acham que é mania. A mãe já nem pergunta. Os dois cães que trouxe da estrada acompanham-no até à curva do lavadouro e ficam ali sentados, a vê-lo partir, como se soubessem até onde podem ir.

É soldador. Passa os dias de máscara descida, a coser ferro com lume, e ninguém desconfia que um homem que doma o metal tenha medo dele. Fala pouco. Ajuda a mãe nos terrenos, vê o futebol no bar do Faria e tem um amigo, um só: Tomás, padeiro, enfiado desde os catorze anos numa cave fria a amassar pão para a aldeia inteira. «Ele é assim, parado», dizem os pais. Ninguém repara em homens assim. Entendem-se pelos silêncios e, muitas vezes, limitam-se a andar.

No décimo primeiro ano, deram um nome àquele medo, numa consulta para onde a psicóloga da escola o mandou: «perturbação psicótica», disseram. O nome não mudou nada. Os mortos que conheceu continuaram a espreitá-lo no corredor da casa de banho, às quatro da manhã, com os olhos pousados na sua nuca como moscas. A mão continuou a descer-lhe ao ombro nas noites em que voltava sozinho. Aprendeu a viver com esses. São medos pequenos, domésticos, quase de estimação.

O outro tem motor.

Vem de longe, primeiro num zumbido debaixo do alcatrão, depois num arrastar de chapa que enche o vale. Silvestre nunca o viu de frente — vê-se lá uma coisa daquelas de frente —, mas sabe-o de cor: enorme, de metal escuro, com um grito estridente lá dentro, a varrer a estrada devagar, quilómetro a quilómetro, à procura de gente. Quando encontra alguém, persegue-o até o apanhar. Só as casas o travam. Uma porta fechada e acabou. No dia seguinte, já esqueceu, volta a varrer ao acaso, paciente como as coisas grandes. Há noites em que Silvestre acorda a chorar com o som ainda dentro do quarto. Há manhãs em que fica à soleira da porta a olhar o asfalto como quem perscruta água funda. E há nele uma força que não sabe explicar e que o empurra para a estrada quase todos os dias. Talvez orgulho. Talvez a ideia de que um homem tem de ir.

Do medo, sabiam a mãe e a psicóloga. Da sua extensão, só o Tomás sabia. Caminha com ele pela berma esquerda sem nunca perguntar «E porquê a esquerda?», e nos dias maus dá-lhe o braço: «Calma, Silvestre, hoje não anda nada aí.» Depois, faz perguntas. Se o som vem de trás ou de dentro. Se o metal, quando grita, grita o nome dele. Se uma porta fechada chega mesmo — e se a coisa, um dia, pode aprender a esperar. Silvestre volta para casa com as perguntas a arder e agradece, porque o Tomás só quer ajudar.

Ninguém repara no padeiro. Na cave, entre fornadas, o Tomás guarda coisas: uma corrente comprida e enferrujada, um ferro velho que arrasta pelo alcatrão, as horas exatas a que os camiões da ração descem para a cooperativa. Nos dias em que Silvestre segue tranquilo, atrasa o passo, deixa-o adiantar-se, e a estrada acorda — uma chapa guincha algures, um peso faz estremecer a berma, uma sombra comprida passa-lhes por cima como uma mão. Silvestre corre, chama por ele. O Tomás chega sempre — a respirar depressa, de boca entreaberta, com os olhos muito acesos. Abraça-o, e por baixo do cheiro a farinha traz outro cheiro, morno, que Silvestre nunca soube reconhecer. «Já passou.» E fica agarrado ao medo do amigo como quem se aquece a um lume.

Piorou. Os dias tranquilos rarearam, o sono encolheu, e a pergunta do Tomás entrou-lhe em casa: «Uma porta fechada chega mesmo?» Passou a conferir o trinco duas, três vezes, e a escutar a aldeia deitado no escuro. Na serralharia, o ferro que soldava pôs-se a gritar como o outro. Nunca o Tomás foi tão amigo: mais cedo, mais vezes, até à porta. Sempre perto, como o cheiro.

Naquela manhã de novembro, o nevoeiro tinha engolido os postes, e sem postes o caminho não tinha medida. Silvestre saiu já a tremer. Na curva do lavadouro, os cães não quiseram passar. Depois, o vale encheu-se: o zumbido, o arrastar, o uivo de chapa atrás dele, a galgar terreno. Largou a marmita e correu. As botas escorregavam no alcatrão, o ar rasgava-lhe a garganta, e gritava pelo Tomás com uma voz que já só era aflição. O som comia a distância — já lhe aquecia as costas, já lhe beijava o pescoço. Tropeçou no rebordo. Caiu de cara, algo estalou dentro do braço, e a dor apagou o mundo por um instante. Depois, o mundo voltou, com o som em cima — e Silvestre virou-se, porque há coisas que obrigam a encarar.

Na estrada vazia, vinha o Tomás. A correr, de olhos arregalados, a escorrer suor, com um sorriso enorme a abrir-lhe a cara e qualquer coisa na mão a ranger contra o asfalto. «Encontrou-te», dizia, e a voz chegava-lhe doce dentro do barulho. «Já te cheira, Silvestre. Vem a abrir a boca.»

Silvestre gritou até ficar sem ar, pregado ao chão pelo braço partido, sem entender o amigo, sem entender nada. O Tomás parou por cima dele, a arfar, com uma cara que Silvestre nunca lhe tinha visto, a bebê-lo de olhos abertos, enquanto o vale inteiro gritava metal.


SOBRE O AUTOR

Élvio Ganança

Élvio Ganança nasceu na Madeira. Entre a memória, a fragilidade humana e a estranheza do mundo, escreve de forma intensa e verdadeira, atento às feridas discretas, aos que passam despercebidos e à beleza escondida nas pequenas coisas. A sua escrita cruza drama, thriller, mistério, policial, fantasia sombria e inquietação psicológica. Estreou-se com quatro contos em Mundos & Máscaras II (2026), foi selecionado para a antologia Des/apego (Divergência, 2026). Assina o projeto «Peguei no meu caderno e escrevi por aí».

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