A Cortina

de Ana Leal

 

O turno da noite na UCI de Cardiologia do Santa Marta não era mais difícil. Era diferente. Depois da meia-noite, os monitores continuavam a apitar, mas havia qualquer coisa no ar que engolia o som antes de ele se formar. Carla conhecia aquele silêncio. Ao fim de anos, aprendera a distingui-lo, porque o silêncio de quem está a recuperar não é igual ao de quem está à espera.

Naquela madrugada de março, a cama 4 tinha o senhor Mário: 68 anos, um reenfarte. Era um homem maciço, mas estava encolhido de uma forma que não combinava com o seu tamanho.

— Enfermeira — chamou ele, com a voz a sibilar. — Vê aquela cortina?

Carla olhou. A cortina azul entre as camas 4 e 5. Parada.

— Vejo. Quer que a abra?

— Não! — O homem agarrou-lhe o pulso com uma força que não devia ter.

— Ela está ali atrás.

— Quem, senhor Mário?

— A morte. Está escondida. Fica ali quieta, à espera. Vejo-lhe a sombra por baixo da cortina.

Carla conhecia aquela conversa. Não era a primeira vez. Havia sempre uma explicação.

— Isso são só os medicamentos. Vamos ajustar a dose, sim?

Mas ele não largava o pulso dela.

— Não é isso. Eu sei distinguir. Ela está ali. É tão magra que quase não se vê, mas, às vezes, a cortina mexe. Só um bocadinho. Para eu saber que não estou a imaginar.

Naquela noite, o senhor Mário não dormiu. Ficou de olhos fixos na cortina. Carla verificava os sinais vitais de hora a hora. Tudo estável. O problema era que estável não queria dizer tranquilo.

Às quatro da manhã, o homem começou a chorar baixinho.

— Não quero ir assim, sozinho. Não com ela a olhar para mim.

Carla aproximou-se e segurou-lhe a mão. Estava fria. Húmida.

— Não está sozinho. Eu estou aqui consigo.

Ele olhou-a.

— Ela fica à espera do escuro. Quando ninguém está a ver. É nessa altura que salta.

Às sete da manhã, Carla passou o turno a uma nova enfermeira, Beatriz. Antes de sair, no entanto, ainda alertou:

— Atenção à cama 4.

Quando voltou, na noite seguinte, a cama estava sem lençóis. Como se ninguém ali tivesse estado.

— O senhor Mário? — perguntou.

— Parou às nove da manhã — devolveu Beatriz. — O coração desistiu. Não respondeu a nada.

Naquela noite, a cama 4 recebeu a dona Alzira: 72 anos, insuficiência cardíaca congestiva. Trazia um terço entrelaçado nos dedos inchados.

À meia-noite, chamou Carla.

— Há alguém atrás daquela cortina?

Carla ficou quieta um segundo antes de responder.

— Não, dona Alzira. A cama 5 está vazia.

— Então, porque é que ela fica ali parada? Tão quieta que nem sequer respira.

— Quem, minha senhora?

— Uma mulher, acho eu. É difícil ver bem. Ela esconde-se quando eu olho. Mas está ali. Muito magra. Com os braços compridos.

Carla foi até à cortina. Afastou-a bruscamente. A cama 5 estava vazia. O monitor estava desligado, não havia travesseiro.

— Está a ver? Não há ninguém. 

Quando olhou de volta, no entanto, a dona Alzira chorava em silêncio.

— Ela mudou de lugar. Agora, está no canto, a contar com os dedos. Um, dois, três… Está a contar as minhas respirações.

A dona Alzira morreu às três da madrugada. Paragem cardíaca. Sem sinais prévios nos monitores. Parou, simplesmente.

Cama 4. Sempre a cama 4. Nos últimos seis meses, dezoito pacientes tinham morrido ali. Uma taxa três vezes superior à das outras camas.

— É a cama mais perto da sala de enfermagem — explicou o Dr. João. — é onde colocamos os casos mais graves. Lógica de protocolo.

Carla acenou que sim. Mas começou a prestar atenção ao que os doentes diziam.

O senhor Paulo disse que conseguia ouvi-la a respirar atrás da cortina. Uma respiração húmida. A senhora Margarida disse que ela inclinava a cabeça quando a observava. Como um pássaro. O senhor Joaquim sentiu o peso na ponta da cama. A cama rangeu. Todos morreram de madrugada. Sempre quando Carla se afastava.

Uma noite, ficou. Plantada ao lado da cama 4, onde o senhor Rui, de 64 anos, murmurava que ela estava cada vez mais perto.

— Não o deixo sozinho — disse ela.

Às duas da manhã, as luzes falharam. O gerador de emergência deveria ter entrado em funcionamento, mas houve um intervalo. Quatro segundos. Nessa escuridão, Carla não se mexeu. Havia qualquer coisa no quarto que não estava ali antes. E então, ouviu. Tão baixo que o poderia ignorar.

Este também.

Quando as luzes voltaram, a cortina movia-se. O monitor do senhor Rui explodiu em alarmes. Fibrilação ventricular.

— Ela tocou-me — disse ele. — Tem as mãos tão frias…

A equipa atuou. Tentou de tudo. O senhor Rui morreu às duas e catorze da manhã.

Quando o corpo foi levado, Carla ficou sozinha. Aproximou-se da cama vazia. Na cortina ao lado, havia uma marca. Escura, em forma de mão, com os dedos compridos demais. Carla estendeu a própria mão para a tocar. Encaixava. E a cortina moveu-se.

Pediu transferência no dia seguinte. Não explicou porquê. Disse apenas que precisava de mudar de sector. A enfermeira Beatriz acenou que sim, sem a olhar nos olhos. A cama 4 recebeu outro doente nessa noite.

Nos anos que se seguiriam, sempre que alguém lhe perguntava se já tinha visto alguma coisa, ela dizia que não, que não vira nada. No novo sector, no entanto, havia também uma cortina azul. E alguém à espera do outro lado. Carla reconheceu o silêncio.


SOBRE A AUTORA

Ana Leal

Ana Leal vive em Lisboa e trabalha na área da Saúde. Começou a escrever ficção depois dos quarenta anos e foi direta ao que a interessa: o sobrenatural, o terror, os lugares onde a realidade deixa de se explicar a si própria. Acredita que, para ver os monstros, não são precisas grandes lentes. Só ver com olhos de ver.

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