A Estaca da Salvação

de Maria João Amaral Graça

 

Acordo de madrugada, com um coro de vozes inquietas a sussurrar-me no pensamento. Levanto-me e caminho até à janela, vendo-a no centro da praça — uma alta e grossa estaca de madeira pregada a outra, em forma de cruz, embutida nas entranhas da terra. Há muito que a festa terminara, e as luzes das casas se tinham apagado, para darem lugar a uma escuridão silenciosa. Durante alguns minutos, fico parada, com o olhar cravado naquele corpo suspenso, enquanto a minha mente tenta dar rosto aos seus pecados. Sinto a curiosidade a arranhar-me a pele, a ansiedade a roubar-me o fôlego. Com o coração acelerado, saio para a rua e caminho apressada até ele, encontrando-o quieto, com os olhos fechados, de cabeça inclinada sobre o peito. Ainda respira. 

Inebriada pelo odor metálico que o envolve, apoio-me no seu pé, dilacerado pelo prego que o trespassa. Quando os meus dedos tocam a sua pele fria, oiço uma voz trémula, que ecoa do alto:

— Foge daqui… enquanto podes.

Levanto os olhos, confusa com o arrependimento nas suas palavras. Teria eu percorrido tantos quilómetros para descobrir que a suposta estaca da salvação era uma simples estaca de tortura?

— Pensei que te tinhas voluntariado… Para te redimires… Para salvares os pecadores… — Começo a duvidar daquele ritual, o mesmo que, até há pouco tempo, guardava como lenda, contada pela minha avó.

Cá em baixo, oiço o ritmo lento da sua respiração, enquanto espasmos incontroláveis lhe sacodem o corpo exausto. Já não deve durar muito. Deixa escapar um lamento, sufocado pela dor, e explica, de olhos revirados:

— Eles preferem os que estão de passagem… impregnados de iniquidade.  

Olha para o sangue que lhe escorre pelas mãos endurecidas, e depois para mim, esboçando um sorriso cansado. Encosta a cabeça à madeira e fecha os olhos. Uma aragem suave bate-me no rosto, mas não traz alívio. Parece vir acompanhada de algo pior. 

— Ainda me ouves? — pergunto, tocando-lhe levemente no pé. Ele não responde. 

Estremeço. Confesso que tenho prazer em ver o sofrimento voluntário, mas nunca atos de barbaridade.

De repente, luzes acendem-se ao fundo, nas casas. Oiço portas a abrir e passos que avançam em direção à praça. Fico imóvel, a vê-los a aproximarem-se, e compreendo, tarde demais, que há lugares que nunca deveriam ser descobertos. Reconheço-os na penumbra. Sinto o seu desejo ávido de purificação e, nesse instante, percebo que não sou diferente. Respiro fundo, sossegada, e olho para a cruz, não como um castigo, mas como libertação. 

 


SOBRE A AUTORA

Maria João Amaral Graça

Maria João Amaral Graça nasceu a 21 de junho de 1976, em Lisboa, onde vive atualmente.
Desde pequena que gosta de contar histórias, sejam elas para miúdos ou graúdos. Colaborou na coletânea Que Não se Calem as Mãos, com o conto «Barriga Milionária», no decorrer de um curso de escrita criativa. Neste momento, é membro do Clube dos Writers, com a mentora Analita Alves dos Santos.


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