A Outra Que Vive em Mim

de Isabel Fontes

 

Dizem que a noite não tem memória. Helena sabia que era mentira.

Desde jovem, vivia diante dos espelhos como quem se ajoelha perante um deus exigente. Passava horas a ajustar a roupa, o batom, o ângulo do rosto — como se o seu reflexo fosse a única verdade possível. Os filhos aprendiam cedo a caminhar de mansinho para não interromperem o ritual materno; o marido desistira há muito de tentar alcançá-la. Cada frase dele quebrava-se no vidro, refletida em silêncio.

O espelho era o único que ela ouvia.

Quando os filhos vinham mostrar um desenho, ela dizia «já vou» sem desviar os olhos da própria imagem. Quase nunca ia. O marido, à noite, deitava-se primeiro; Helena ficava no corredor iluminado, a experimentar expressões como quem testa máscaras para uma peça em que só ela tinha lugar. O resto da família era figurante.

Até ao dia em que o espelho decidiu falar.

Primeiro, foi apenas um vulto. Um rosto pequeno, de criança, atrás do seu. Depois, uma mão esguia a tocar o vidro por dentro. Helena piscava — e o corredor ficava vazio.

Acreditou que era cansaço, mas a imagem persistia. Noite após noite, ganhando nitidez. Era um dos seus filhos — triste, esbatido, ainda à espera de ser notado.

A casa inteira parecia observar esse despertar tardio. O espelho embaciava-se sem vapor. As paredes estalavam em horas impossíveis. O silêncio tornava-se tão denso que era quase uma presença. Às vezes, quando Helena passava pelo quarto dos miúdos, tinha a sensação de que o ar se retraía, como se a própria casa lhe recusasse passagem.

Helena tentou mudar. Ou fingiu que tentava. Sentava-se à mesa, perguntava por trabalhos de casa, sorria tarde demais. As respostas vinham curtas, descoloridas. O casamento já morrera, os filhos tinham crescido, e o espelho já não era cúmplice — era testemunha. Devolvia-lhe uma versão de si com os olhos ligeiramente mais vazios, a boca demasiado rígida, como se a imagem começasse a cansar-se de a imitar.

Os anos passaram, levando com eles o marido, a paciência dos filhos, a exuberância que ela vestia como escudo. Helena mudou-se para outra casa, menor, antiga, com tábuas que rangiam e canalizações que suspiravam. Trouxe apenas um espelho grande, herdado da mãe, que pendurou na casa de banho. Disse a si mesma que já não precisava dele como antes — mas não o conseguiu deixar para trás.

Durante algum tempo, acreditou que podia reinventar-se longe dos espelhos que guardavam memórias demais. Aprendeu a tomar o pequeno-almoço sozinha, a ouvir o frigorífico em vez de vozes. E quase se convenceu de que o passado ficara fechado na outra casa.

Mas a noite não esquece.

Foi nessa casa que tudo se cumpriu.

A garrafa na mão, o gesto rápido, preciso. Não pânico — intenção.

O som do vidro a ceder. O som do crânio a estalar.

O baque de um corpo rendido à gravidade.

Antes disso, houve gritos. Uma mão a apertar-lhe o braço, o hálito carregado, a proximidade sufocante. E houve aquele momento viscoso, entre o medo e a decisão, em que ela percebeu que sabia exatamente onde a garrafa estava — e para que serviria.

Helena diria depois, às paredes que a escutavam, que fora legítima defesa. Mas as paredes sabiam a verdade. O reflexo também.

Ela limpou tudo: o chão, as mãos, a prova, os vestígios — ou acreditou que o fizera. A polícia veio, mediu as frases, avaliou-lhe a voz. Ela respondeu como quem segue um guião. E saíram sem a levar.

Mas a casa não a absolveu.

O lavatório engasgava-se — como se vomitasse água em vez de memória.

A cada gotejo, o som lembrava uma respiração interrompida.

As tábuas do corredor gemiam sob passos invisíveis.

E à noite, o ar tinha a textura de um segredo apodrecido.

Helena tentava dormir, mas o silêncio mexia — remexia — respirava.

O homem morto aparecia em fragmentos: o contorno do ombro numa sombra; a curva do maxilar no reflexo da janela; a mancha escura que ela jurava ter limpado. Uma vez, viu a marca molhada de um sapato que não era o seu avançar até à beira da cama.

E o espelho… o espelho começava a mover-se antes dela, como se estivesse cansado de ser apenas reflexo. O ângulo mudava ligeiramente, empurrando-a para o centro da imagem. A Helena do espelho inclinava a cabeça antes dela. Esperava. Observava.

A culpa crescia como mofo.

Dentro dela.

Dentro da casa.

Numa madrugada espessa, viu novamente a criança do espelho — agora deformada pelo horror. Já não pedia amor. Pedia contas. E Helena percebeu: o espelho nunca refletira o mundo — refletira aquilo que ela era capaz de destruir. Primeiro, os filhos. Depois, o homem. Agora, a si própria.

Decidiu confessar. Não pela justiça, mas para calar a casa. Para calar o reflexo. Para nomear o que fizera e, talvez, sobreviver-lhe.

Ao amanhecer, vestiu-se mecanicamente e aproximou-se da porta.

Por um instante, sentiu que, se desse mais um passo, a casa a puxaria de volta.
Fechou a porta. Não foi.

O silêncio instalou-se — atento, imóvel.

E Helena percebeu, tarde demais, que já não era ela quem habitava aquela casa.


SOBRE A AUTORA

Isabel Fontes

Isabel Fontes é uma autora lisboeta a viver em Londres, com trabalho publicado em Portugal, Reino Unido, Argentina, Espanha e Brasil. Escreve poesia, contos e prosa breve, explorando a fronteira entre realidade e ficção. Desenvolveu projetos televisivos de divulgação cultural e iniciativas que cruzam literatura, música e artes visuais, como o projeto Jazz’n’Poesia. Em Lisboa, apresentou também «À Conversa Com», no Palácio Galveias. A sua escrita procura fixar instantes fugazes — o silêncio após um olhar, o acaso que persiste, a emoção breve que se revela sem palavras.


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