Abono
De JP Félix da Costa
Senhor Bonifácio Mendonça à sala 3.
A voz roufenha no altifalante do centro de saúde chamava o seu nome. Ergueu-se, com dificuldade, devido à protuberante barriga, e dirigiu-se para o interior do centro seguido por três crianças.
Sentou-se frente à médica que olhava atentamente para o ecrã do computador.
— Senhor Mendonça, o que é que o traz por cá?
— Disseram-me que ia ficar sem médico de família se não viesse, por isso, aqui estou.
— Vejo que é a primeira vez que cá vem e que trouxe os seus filhos consigo. Três. Já não se vê muito hoje em dia.
— Sim, claro, três. Por causa do abono, percebe? Rende mais.
A médica olhou para ele com um ar reprovador, mas absteve-se de comentar.
— Vejo também que as crianças não têm ficha. Tratamos já disso.
— Se acha necessário…
Voltou a olhá-lo com o mesmo ar. Começava a não simpatizar com aquele homem.
— Primeiro, vamos precisar dos dados da mãe.
— Eles não têm mãe.
— É uma família monoparental? É isso que me está a dizer?
— Se a quiser chamar assim, sim.
— De qualquer forma, preciso dos dados da mãe biológica, por causa das questões de hereditariedade.
— Mas eles não têm mãe biológica. Estas são as minhas criações. Por causa do abono, percebe?
— Como assim? — A médica fulminou-o com o olhar. Aquele homem estava a deixá-la furiosa.
Bonifácio ergueu-se a custo da cadeira e desabotoou a camisa, revelando a barriga dilatada. A médica olhou para ela e viu umas protuberâncias que se moviam entre a pele e a camada de gordura que cobria os músculos. Parecia algo envolto em película aderente. Uma das partes rodou, e ela pôde ver, espalmado contra a pele, o rosto de uma criança.
— Estou a criar mais um, sabe? Preciso de descartar o mais velho, já quase passa da idade. Por causa do abono, percebe?
SOBRE O AUTOR
JP Félix da Costa
Apaixonado por livros desde o primeiro dia em que um lhe caiu nas mãos, JP (João Pedro) Félix da Costa tem nutrido o gosto pela escrita. Pelas circunstâncias da vida, esse caminho foi ficando perdido em fragmentos de textos e histórias que guarda para mais tarde terminar. Mais de quinze anos volvidos sobre a publicação de um livro juvenil, procura agora recuperar o tempo perdido e entregar-se às Letras para fazer o que mais gosta, dar vida aos mundos e histórias que lhe fervilham na imaginação, desde histórias para crianças a histórias do mais profundo horror.