Apego

de Carolina Fidalgo

 

Primeiro, a pega. Após o primeiro puxão, a dor. Quere-a demasiado. Sem calma. Os fluidos internos convergem apressadamente para o exterior. Forma-se um ritmo em crescendo. Chupe-chupe. Chupe-chupe. O anel de lábios aperta. O mamilo de Vera torna-se epicentro duma extorsão contínua.

O maxilar frio abre e fecha contra a pele quente. A árvore do seu peito irradia-se de estrelas que lhe fazem comichão. Os ramos fecham-se em pequenos brotos, e Vera fecha os olhos. Em vez de amor, nutre náusea. O odor do leite é grosso e preenche o espaço em volta.

É de si, e está a esvaziar-se. Ela está a esvaziar-se.

Não se lembra de ser amamentada pela mãe. Só tem a memória, talvez inventada, duma mancha feia e castanha. Uma aréola dilatada. A imagem provoca-lhe desconforto. A própria nudez também a envergonha. Evita olhar. Não quer ver-se a ser consumida.

Aos poucos, a forma pesada perde a firmeza. Uma mão agarra-lhe o seio-saco, mas é em vão. O caudal esmoreceu.

Dá-lhe a mama que sobra.

O aroma a açúcar intensifica-se. Um gemido junto ao coração. Dar aos seus é natural; não lhe parece natural. Vera deixou os produtos lácteos. Leite, natas, iogurte. Não consegue esquecer as vacas cheias, despejadas como bombas de gasolina. 

A boca estreita-se com maior urgência. Como se desejasse sorver-lhe a carne. Com impaciência, o mamilo é esmagado entre as lâminas dos incisivos. 

Pede-lhe que pare.

Não pára.

Volta a pedir-lhe que pare. Que a magoa.

Os incisivos soltam-na. Ao peito que goteja. São as suas palavras que magoam. O leite pega-se-lhe à roupa em manchas doces. Vera não sabe como é estar dependente e ter tantas necessidades. Não imagina o que é ser frágil. Só pensa em si. 

Os olhos pingam-lhe, as lágrimas são tão quentes que parecem lácteas, misturadas com o fluido dos seios à mostra.

A voz de fome lamenta-se. Se a amasse, não lhe negaria o que lhe deve. É este o seu amor? Vera quer dizer que não, que nunca quis magoar ninguém. A voz de sede acusa. Porque é que não pensa nela? Vera quer dizer que sim, que pensa nela. A voz de medo insiste. Não a vai deixar nunca, pois não? Não a quer ver triste, ou quer?

Vera diz que nunca a deixará. 

Com ternura, dá a mama à mãe.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE A AUTORA

Carolina Fidalgo

Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.

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