Ar Curto
de Vanessa Barroca dos Reis
Fevereiro cheirava a lixívia. O odor antigo entranhado, o odor novo cortante.
Lavava as mãos sem contar as vezes. A pele já não ardia, mas sentia-a cada vez mais fina; talvez se rasgasse, um dia destes.
A casa permanecia arrumada, silenciosa, mas descobria sempre um canto com pó que pedia cuidado.
Na primeira semana, acordou com arrepios no ventre. Uma memória muscular, teimosa. Ficou imóvel até o corpo desistir.
Mais tarde, encontrou uma mancha no tapete da casa de banho. Não perdeu tempo a identificá-la. Atirou o tapete para dentro da máquina e esfregou o chão baço. Depois, sentou-se num canto, a ouvir o eco distante da rua e a sentir o cheiro químico desvanecer.
Saída do duche, observou o espelho embaciado. Com o dedo indicador, escreveu: FETO.
Pela primeira vez, não chorou. Encostou a testa à superfície húmida, sentindo-lhe o frio. Algum tempo passou, e ela ficou assim.
Secador, o cabelo entrançado, um pouco de creme no rosto. Vestiu-se com vagar e saiu para o ar curto do Inverno.
Quando a porta se fechou atrás dela, algo finalmente cessou.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Vanessa Barroca dos Reis
Nascida em Lisboa, cresceu na Amadora, imersa em livros, videojogos, música e cinema. Na adolescência, começou por escrever contos de terror, de mistério e poemas. Alistou-se aos 18 anos na Força Aérea, onde trabalhou uma década. É licenciada em Direito (UAL), e tem uma pós-graduação em Edição (UCP). Mantém os blogues Bué de Livros e Bué de Fitas — na blogosfera, assina como Barroca.
Integra várias antologias, entre as quais Sangue Novo (2021) e Sangue (2022), ambas vencedoras do Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa. Vive na região da Alsácia desde 2015, onde trabalha na área dos Direitos Humanos.







