As Nossas Vozes

de Madalena Feliciano Santos

 

O apartamento parecia maior do que Jéssica se lembrava. Recordava-se de visitar a amiga e de passarem horas a conversar, no quarto que agora seria o seu.

Ao anoitecer, Rita recordou-a de que ia passar uns dias fora e queria saber se ela ficava bem. Disse-lhe que a viria buscar no seu dia de anos, para que pudesse celebrar com ela e as outras amigas. Jéssica disse que sim. Sorriu e despediu-se.

 

*

 

Ao anoitecer, Jéssica deu por si na sala. Tinha o corpo coberto de suor. Algo a tinha despertado — um barulho oco, seco. Ganhando controlo sobre os músculos, correu para o quarto, apenas para perceber que não tinha chave para o trancar. Recompôs-se um pouco, no silêncio, até a dúvida aparecer. Depois, abriu a porta o mínimo possível e espreitou. O corredor que percorrera em três passos parecia agora não ter fim.

É só porque não há luz. 

Ouviu então alguém no fim do corredor. 

Não, não alguém. Várias pessoas.

Uma névoa negra-arroxeada começou a surgir, rasteira, pelo soalho. E as vozes, incompreensíveis, pareciam infiltrar-se nela: na roupa, nos tendões e nos ossos, como se andassem dentro de si.

As paredes aqui são mais finas.  

Apercebeu-se de que, ao longe, à esquerda no corredor, estava uma porta roxa. Quando ela abriu, fechou a sua. No entanto, ainda foi a tempo de ver uma sombra a sair, deixando um rasto da estranha névoa.

 

*

 

No dia seguinte, quatro raparigas sentavam-se à mesa. Fitavam Jéssica, mas os corpos pareciam estar de costas para ela.

É só uma ilusão da luz.

Jéssica não se lembrava de nenhuma daquelas raparigas, mas elas sorriam como se a conhecessem. Jéssica devolveu o sorriso. Não tirou os olhos delas enquanto pegava na comida e se levantava.

«Vai ser esta noite», ouviu Jéssica atrás dela, por entre sussurros incompreensíveis.

E Jéssica reconheceu algo ali, só não sabia bem o quê.

Devo ter percebido mal.

Quase a chegar à porta do quarto (este corredor está cada vez maior), olhou para o lado e para diante. Tinham aparecido mais três portas roxas. Havia também um vulto junto à parede que marcava o fim do corredor. Era uma das raparigas que, nem há um minuto, estava na cozinha. 

— Vamos levar isso tudo para o quarto? — perguntou ao aproximar-se, posicionando-se entre Jéssica e a porta.

Jéssica paralisou. 

A outra rapariga sorriu, encolheu os ombros e afastou-se. Jéssica entrou no quarto e fechou-se lá dentro. Continuava desconfortável por não conseguir trancar a porta. 

 

*

 

Permaneceu sentada na cama durante todo o dia

É só uma brincadeira.

Afinal, ela era a «rapariga nova». Mas e se a Rita lhes tivesse contado o que lhe tinha acontecido (sem culpa dela, claro, como ficou provado)? E se a quisessem provocar?

A Rita contou-lhes.

A Rita contou-lhes.

A Rita contou-lhes.

 

*

 

Lá fora, o dia escurecera. Jéssica dirigiu-se à porta e colocou a mão na maçaneta. Rodou-a e tac. Com a mão na posição inicial, voltou a rodá-la. Tac. Naquele momento, a pouca calma que reunira desabou. A porta estava trancada. 

Isto não está a acontecer.

— Pessoal! Isto não tem…

Quatro batidas secas ressoaram dentro do quarto, dentro de si. Sussurros preenchiam o espaço. Mesmo tapando os ouvidos, mesmo gritando, não existia nada para lá das vozes. E Jéssica, colada a um canto, só esperava que tudo parasse. 

E parou. Algum tempo depois. Como um interruptor a desligar-se. 

Jéssica dirigiu-se à maçaneta de olhos inchados. Rodou-a. A porta abriu.

Uma névoa roxa escorria por baixo das portas fechadas. Enquanto atravessava o corredor, pensava em como eram tantas.

Tantas portas.

 

*

 

Jéssica estava no centro. À sua volta, todas sussurravam. E depois, nada. Jéssica olhou para cima.

— Não sei o que faríamos sem vocês. — E, ao dizê-lo, sorriu.

 

*

 

Rita não tinha ido para longe. Decidira retirar um dia à viagem para confirmar se estava tudo bem, usando como desculpa o dia de anos. Com o historial, com o regresso, preferia ter a certeza. 

A porta de casa tinha a chave por dentro, pelo que ainda teve de bater à porta. Jéssica abriu-a depois de uns instantes.

— Jess — Rita sorriu ao ver a amiga —, obrigada.

Anda, entra.

Rita foi até à cozinha e ligou a luz. As lâmpadas estavam tapadas com papel celofane roxo.

— Porque é que as lâmpadas estão tapadas?

E então, um estrondo! Rita pensou que ia ter um ataque cardíaco. Demorou uns segundos a perceber que eram só confetti. Só não teve tempo de ver que, por entre os pedacinhos de papel se misturavam pedaços de vidro.

 

*

 

Jéssica atravessou o corredor e entrou no quarto. Ouvia ainda alguns sussurros. Uns «por favor», principalmente. Tinha a roupa salpicada de algo pegajoso, molhado. Não conseguia perceber o que era naquela luz arroxeada.


SOBRE A AUTORA

Madalena Feliciano Santos

Escritora de ficção dentro do género do terror, Madalena Feliciano Santos publicou o seu primeiro conto, «Sonhei com uma Linha Vermelha» em 2021, na antologia Sangue Novo, e integrou a antologia Sangue (2022) com o conto «O Homem do Comboio». Paralelamente, escreve sobre livros, filmes e séries no blog myshelfblog.blogspot.com.

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