Asas Inúteis e Outras Inconveniências

de Mousai Kalliope

 

Como ter borboletas no estômago se elas são do mesmo tamanho que eu? Arrasto o corpo para fora da flor de lavanda e sinto um remoinho nas entranhas. Nada, porém, que se assemelhe a um bater de asas… apesar de eu já ter asas. As minhas pequenas mãos tremem e as têmporas estão doridas. Pesadelos consomem-me os pensamentos, mas o que seria deste lamento sem uma história fantástica?

O meu nome é Maria, mas estou tão longe de ser uma santa que me sinto enganada pelo destino. Tenho asas para voar somente até às nuvens, nunca até ao céu — uma «fada» cujo conto de fadas é perturbador. Vivo por razões performativas. 

Quinta-feira passada, deitada na estrada de Sintra, espero tornar-me em pedaços no alcatrão manchado, com fios de cabelo que parecerão ter sido mastigados e cuspidos. Não tenho razões para apostar na sobrevivência quando sofri com a maior perda de todas: a da minha inocência. Sou demasiado humana para o bem de todos.

«Seria mais fácil fazeres tudo pelas tuas próprias mãos.»

Quando penso que vou finalmente ascender e parar de pensar, quando finalmente o vento canta com todo o seu pulmão, o carro imobiliza-se, antes de chegar a mim. Sai então uma família, que decidiu espreitar o gado à beira da estrada, assim como as flores que já me cansam a vista. A mulher tem um ar derrotado e frágil, enquanto o homem tem uma certa arrogância, de aparência não se destaca. 

Decido desistir da minha tentativa e seguir a família, mas há uma ideia que me atormenta. E se… E se eu pudesse trocar de lugar com esta mulher? Pobre alma afetada pelo caos do Ser. Se eu tivesse um metro e sessenta e oito seria mais fácil. Para ambas, penso eu.

Encontro-me com a Fada Mãe e digo ter o meu desejo. Todas nós temos direito a um. A maioria pede flores maiores para descansar, ou saber distinguir frutas venenosas das frutas do paraíso. Eu preciso de mais. Digo-lhe isto num tom firme, e ela pergunta-me: «porquê?». Eu digo que não sei, mas sei que ser fada não é estimulante. Tenho uma curiosidade mórbida, desejo por prazeres carnais e fatais, a indagação crescente sobre como será ter partes íntimas e força para esmagar uma barata. 

Quinta-feira de manhã e acordo com um metro e sessenta e oito. Para meu grande desgosto, não sinto paz por simplesmente existir como humana. O meu «marido» está a meter uma meia no pé esquerdo e diz que está feliz por eu finalmente ter acordado cedo. Eu digo que muita coisa mudou em mim, e ele ri-se. Esfrega a cara e sugere termos relações antes do horário de trabalho.

Não senti nada, senão o calor do seu corpo no meu. Vivenciei um momento climático com um final anticlimático. Descubro que, como humana, a raiva vem de forma extremamente natural e súbita.

Sou uma tola.

Faço tudo em piloto automático. Descubro que o meu ofício é cuidar da casa e das crianças. Não era esta a humana que queria ser: uma que continua apenas a limpar a relva e a deitar-se numa flor de lavanda. Pelo menos, eu tinha asas. 

Encontrei uma barata perdida no terraço e esmaguei-a com a sola do sapato. Fez um barulho desconfortável, tanto que o senti. Mas não senti, efetivamente, nada.

Quinta-feira à noite e sinto que a raiva corrói o meu corpo. Sei esta casa e todos os seus objetos e bonecos de cor, assim como os trajetos que os meus descendentes diariamente fazem. Sinto e sei. Sinto e sei.

Há uma grande semelhança entre o prazer e o errado. Sofro de ansiedades que não me são familiares, que não são características da minha personalidade: a vontade de consumir, destruir, desistir. Como a barata que pisei.

Passeio pelo pátio enquanto comem à luz de velas. Ela não come nem tem apetite. Eu… quero eu dizer. Chamam-lhe Sirenna. Vejo que cumpro o meu destino ao tornar-me no que o meu antigo corpo de fada desejava. E descubro então a minha verdadeira face. 

Quinta-feira à meia noite, entro no quarto dos meus filhos e digo que nunca quis isto, mas é necessário… Eles não percebem e acenam confusos. Rendem-se ao ato sufocante e violento até estarem roxos. Não sinto nada e penso que é melhor parar por aqui, mas o meu marido chama por mim. Para ele, reservei a despedida mais trágica. Tive vinte minutos e trinta segundos de puro êxtase vermelho. De puro clímax pálido. Pobre criatura…

Sento-me no sofá com as mãos cor de vinho e acendo um cigarro. Ao que parece, a Sirenna fumava na solidão da noite. A desilusão cobre-me o corpo mais do que o suor. Não sou humana. Sou ex-fada e atual Sirenna. Nenhuma das duas tem humanidade.

Ascendo, então. Não com asas, mas de corpo e alma, algures onde borboletas fazem das minhas entranhas uma casa. Permito que o meu luto espiritual se torne num messias. E as minhas mãos ficam permanentemente manchadas com a cor de vinho. Estava farta de lavanda. 

«Pelo menos, eu tinha asas…» 

Tola. 

Nunca consegui realmente voar, até deixar de as ter.


SOBRE A AUTORA

Mousai Kalliope

Mousai Kalliope/Maria Karolina é uma jovem escritora multipublicada, nascida no Brasil, mas criada em Portugal. O seu trabalho consiste maioritariamente em poesias ou trabalhos em prosa focados no género de drama ou horror.


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