Assembleia dos Amantes

de Carolina Fidalgo

 

Existe um lugar onde ele as guarda: um átrio cavado na rocha fria, onde veios de água se entremeiam com as sombras. Ali, são exibidas como estátuas que mexem. Ostentam máscaras de cera sobre as feições, tanto que ele só as distingue pela cor do cabelo. Há-as de cabelo cor de tronco, há-as de cabelo cor de areia, até as há de cabelo cor de dióspiro aberto. Mas é pelas pernas que ele as prende — tece —, é pelas pernas.

Elas ocupam-se com joguinhos todo o dia. É comum vermo-las aos pares, de barriga para baixo e pernas no ar, a jogar dominó. Às vezes, jogam pingue-pongue. Jogam muito mal, já que o fazem às cegas. A cera que lhes molda a cara é pesada e da cor do osso. Nenhuma delas gosta da máscara, mas sabem que, se a tirarem, serão expulsas da assembleia. É o seu maior medo.

Existe esse lugar onde ele as guarda. Uma instalação de amantes cegas. Onde, com uma agulha dourada, ele lhes une a sutura e as torna peça única da sua colecção, costurando-lhes a pele com escamas cor de coral. É um trabalho longo e custoso. Durante os primeiros pontos, ele esconde que haja outras. Dói-lhes quando a pele é perfurada, mas elas deixam, porque ele diz que é sem querer e lhes dá rebuçados. Mais tarde, quando a agulha lhes arrepia grandes pedaços de carne, e a linha as prende como malha de ferro, elas começam a escutar vozes. Ele já não esconde as demais, exibe-as. Espicaça. Uma e todas tornam-se o olho do binóculo da outra; o espectador e a atracção.

Morava também eu nesse lugar. 

Um dia, não tolerei a agulha contorcendo-se-me sob a epiderme e parti a máscara com as mãos. Vi-o, por fim, tal como era: sereia velha de cabelos longos. Vi também as outras. Resíduos emagrecidos, como berloques num colar, cosidos por um emaranhado de cabelo negro. O sonho precioso que tanto me doera era uma escola de fantoches.

Roí as minhas costuras com os dentes e fugi, movendo-me sobre pernas tortas, feridas de escamas de coral. Abandonei a gruta e, a coxear, andei por muito tempo até encontrar um lugar seguro. Seco. Luminoso. Agachei-me e lá fiquei durante vários séculos, deixando a solidão assentar sobre mim como pó. 

Até que um dia ele me veio buscar. 

Respondi-lhe com ódio, cuspindo-lhe intenções de boca seca. Mas, quando ele me estendeu a mão, não a soube rejeitar. Beijei-lha ainda de olhos abertos. 

Já depois de a cera coagular, ele entregou-me a agulha de ouro e uma meada de cabelos negros. De mãos trémulas, bordei-me a ele em ponto grilhão.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Carolina Fidalgo

Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.

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