Avariados
de Remi Gonçalves
Atravesso a cidade sob a luz do entardecer, ainda forte, entrando obliquamente pelo para-brisas e forçando-me a estreitar os olhos, mesmo com a pala para baixo.
A cada curva, a luz muda de sítio e reencontra uma fresta e o ângulo certo para me encandear.
Endireito-me no banco, de coluna esticada, a tentar ganhar uns centímetros ao mundo, com as mãos apertadas no volante.
Cheguei.
Estaciono longe. Longe de tudo. Do barulho, dos olhares.
Num gesto rápido, salto para o banco de trás e visto a farda, no pequeno intervalo de ar que sobra entre o assento vazio e o teto forrado a pó. Dispo a pele de civil e enfio a outra. A que pesa. Que aperta. Que incomoda.
Quando saio do carro, já não sou quem entrou.
Na entrada do hospital, encosto-me à parede onde o sol já não aquece e espero pela troca de turnos. Risco um fósforo. O enxofre arde azulado por um segundo. Acendo um cigarro, e a primeira passa enterra-me o calor nos pulmões.
Meia dúzia de crianças passa, questionando aos pais exaustos se sabiam que o Pai Natal fumava. Ainda não estou de serviço, por isso ignoro o ar de reprovação dos progenitores e finjo estar imerso no jornal. O cigarro arde num canto dos lábios e semicerro o olho desse lado, protegendo-o do fumo ascendente em espirais preguiçosas, enquanto aguardo o momento certo. O momento em que a rececionista se vira e em que o segurança se distrai. Então, atiro a ponta do cigarro, dobro o jornal e entro. Sem dar nas vistas. Como se pertencesse aqui.
Todo o procedimento foi milimetricamente planeado pela Empresa, especialista em soluções discretas para problemas embaraçosos, geralmente pais que não querem aceitar um recém-nascido com imperfeições ou, como eu carinhosamente gosto de lhes chamar, Avariados.
Um lábio leporino, uma síndrome rara, um sexto dedinho ou até simples hemangiomas que desapareceriam ao final de semanas são motivos suficientes para que procurem os nossos serviços. Pagam uma pequena fortuna para lhe fornecermos um bebé substituto, saudável e «normal», e façamos desaparecer o original.
O fato vermelho, de poliéster barato que não respira, cola-se às minhas costas como uma segunda pele ardente. Um fio lento e salgado escorre-me ao longo da coluna. O algodão irrita-me a face com ardor e comichão. Na mão direita, o saco encarnado. Dentro dele, entre guloseimas que vou distribuindo às enfermeiras de retinas fatigadas e aos pais de cara azulada pelo brilho dos telemóveis, dorme o verdadeiro presente: o bebé B.
Respira devagar, enganado pelo leite da sedação.
No quarto 116, efetuo a troca do bebé A, de faces rosadas, pelo Avariado com uma mancha cor vinho do Porto que lhe cobre metade do rosto. O bebé B. A menina, agora empacotada e levemente sedada, foi para o saco. Agora, só resta a saída.
Desço as escadas de serviço com o saco a baloiçar por cima do ombro esquerdo. O peso, embora mínimo, é moralmente colossal.
Ao virar um lanço de escadas, apressadamente, o saco embate com força no canto metálico do corrimão. Um assomo de adrenalina agiganta-se dentro de mim, inundando-me o sistema nervoso.
Congelo à espera do choro.
O silêncio é muito pior.
SOBRE O AUTOR
Remi Gonçalves
Remi nasceu em 1995, em Penafiel. 41.19682374371018, -8.30977178430423
Não fosse ele profissional da área de Ciências Geográficas e especialista em Sistemas de Informação Geográfica. Leitor aficionado que bebe das fontes de Stephen King e de Raphael Montes – influências que moldam a sua escrita espartilhada e visual.







