Cadência
de Miguel Ângelo Gonçalves
Cantámos porque o silêncio já nos roía os ossos.
Cantámos para abafar o som do bosque que respirava.
Veio quando o ritmo se fechou sobre si.
Não caminhava, deslizava entre batidas, usando o tempo como carne.
O corpo era feito de restos.
Rostos costurados. Bocas abertas em preces antigas. Olhos virados para dentro.
Cada passo afinava o coro.
Cada nota arrancava algo de nós.
Ordenou que não parássemos.
Uma cobra a devorar a própria cauda.
E o chão obedeceu primeiro.
As gargantas rasgaram-se de tanto cantar.
As palavras tornaram-se ganchos, puxando-nos as vísceras pela boca.
Quem tentou fugir afundou-se na terra morna, com raízes a entrarem-lhes pela garganta, pelos olhos ainda vivos.
Parou então à minha frente.
Abriu-me o peito com ternura.
Agora, é parte de mim, e eu dela.
E venho quando a música chama.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
Miguel Ângelo Gonçalves
Miguel Ângelo Gonçalves nasceu no Porto, Portugal, nos anos 80.
Cresceu com banda desenhada, livros de fantasia e de terror — bem como filmes — e com bandas de rock.
Desde muito novo que escreve, sobretudo para si próprio, e as suas histórias são uma mistura de terror, thriller e serial killers, com algumas delas a aventurarem-se no espectro sobrenatural do terror.
Passa o seu tempo livre a jogar roleplaying games, a ler e a beber café.
É o autor de The Scarecrow Man, que foi publicado na antologia da Dark Pine Publishing e independentemente como minilivro.
Se estiverem no Porto, é provável que o encontrem num Starbucks a ler ou a rabiscar num caderno.







