Como Um Relógio
de Rita Santos
Hoje, faz um ano. Sei-o ainda antes de olhar para o calendário. O alarme marca as 3 h da manhã, hora em que te foste. Nessa noite, enviaste-me uma mensagem naquele estilo tão próprio que reconheceria em qualquer lado: «Oiiiii! Estás acordada?» Não estava. Pela manhã, tinha várias chamadas perdidas e mensagens a questionar se já sabia do acidente. As tuas insónias. Meteste-te no carro e embateste no separador central. O telefone vibra na minha cómoda. Desta vez, estou acordada. Os meus dedos largam-no na almofada, aberto na mensagem: «Oiiiii! Estás acordada?»
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Rita Santos
Rita Santos nasceu em Lisboa, no ano da passagem do cometa Halley, e jura que um dia ainda vai escrever sobre a data. Quis ser desenhadora, arquiteta, pintora e uma mão-cheia de coisas mais. E se calhar ainda quer ser isso tudo. Uma poliamorosa, portanto. Começou a escrever um livro aos 16 anos, que abandonou porque era uma porcaria. Depois de um bloqueio de uma década, reencontrou-se com a escrita e publicou o seu primeiro conto, «Vermelho Requinte», na Fábrica do Terror. Daí à publicação da sua primeira coleção de contos, 31 Faces de Terror, em nome próprio, foram alguns meses. O cinema, a música, a cultura pop e as oddities fazem parte do seu universo de referências. O romance? Até aos 100 anos, deve dar para escrever um.







