Companhia de Dança

de Carolina Fidalgo

 

O ritmo é o de palmas que batem, mas a melodia é de trovoada lenta, moída e desfeita em pedaços. Tac-tac, rugido de chão contra sapato; tac-tac, os ecos retumbantes migrando pelas ruas e pelo espaço, a céu aberto e à vista dos astros. Através de veios estreitos revestidos de seixos, a trupe avança, cobrindo-os de solas gastas e percussivas. 

Tudo começou duas semanas antes, a 14 de Julho de 1518. Frau Troffea pousou o saco de farinha que comprara no mercado e começou a dançar.

Durante alguns dias, dançou sozinha. O seu corpo padecia do embalo de música errática e inaudível, convulsionando-se em gestos primevos e exuberantes. Os pés. Acima de tudo, os pés. Enfiados em botins irrequietos, era como se escapassem a bocarras invisíveis sobre a calçada.

Depois, alguém se juntou a ela. E outro. E mais outro.

A mancha sapateadora disseminou-se pelas ruas da cidade como aguarela numa gota de água. Em poucos dias, contavam-se várias centenas de almas na companhia de dança de Nosso Senhor.

Tac-tac. Tac-tac.

O Conselho de Estrasburgo consulta o bispo da cidade, médicos, curas. Faz construir um palco de madeira junto ao rio para dar mais espaço aos dançarinos. Manda reunir uma orquestra. 

As gentes querem baile; baile terão. 

Teatro montado. Manequins móveis e articulados. Poeira que paira: que os esconde, que os revela. Caras cruas e vermelhas. Caras cozidas de suor. Êxtase. Corpos desconjuntados, movidos de desolação. Violinos mortiços entremeando como brotos de feijão as migalhas de trovoada. Tac-tac. Tac-tac. Deslumbre. Mas os pés: acima de tudo, os pés. Brancos por entre as solas devoradas. Comidos, os pés, até ao miolo do osso. As bocas da calçada e as suas línguas vermelhas. Tac-tac. Tac-tac. Fantoches mal cobertos, trapos rompidos por suor. O corpo descoberto. Cadáveres locomovidos pelo pulso sombrio de uma vaga fria e secreta.

Dançam tudo até ao fim, até estarem dançados deveras.

As massas caídas vão sendo removidas do salão de baile.

Aos poucos, a dança esgota-se-lhes do corpo. À medida que o espectáculo perde o ritmo, os violinos são mais evidentes sob a trovoada: tac. Os olhos voltam-lhes à cara e os bailarinos desbailam, soltam-se do enxame.

Cada um deles leva consigo um corpo que não lhe pertence.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE A AUTORA

Carolina Fidalgo

Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.

Gostas de ler? Aqui, encontras os melhores contos de terror! 

Privacy Preference Center