Confissão
de André Costa Gonçalves
A porta do confessionário abre com a cerimónia rangente habitual.
A voz é melodiosa, mas áspera. Torna a aliteração agradável em vez de cuspida. — Perdoa-me, padre, porque pequei.
Do outro lado da malha metálica que permite a comunicação entre confessor e confessado, o padre endireita-se ligeiramente, estranhando a descortesia. De seguida, oferece a bênção.
— Somos todos pecadores.
— Bem sei, bem sei! Estou no sítio certo.
— Está, sim. Quais são os seus pecados? — A sua voz é desinteressada, rotineira.
— Ah, padre, por onde começar?
A resposta desperta o clérigo.
— São assim tantos?
— Inúmeros. Inúmeros! Veniais, mortais, amorais, normais… Decadentes ou prática comum, tudo depende da época, não é assim? Decorre das mentalidades. Já palmilho este mundo há tempo suficiente para saber. — A voz continua, entre a sedução e o perigo latente, como um aviso, uma serpente a sibilar. — Ah, padre… Padre, padre, padre… Por onde começar? Gula, que achas?
— Eu… Muito bem. Gula. Que mais?
— Cobiça. Ira. Preguiça. Todos, todos!
Hesitação.
— Está… Está a gozar comigo?
— Luxúria. Maledicência. Avareza. Inveja.
A voz do padre endurece.
— Ouça, não pode-
— Mentiras, insultos, negligência, tudo muito bem empacotado por ostensiva soberba! — Uma gargalhada, traindo fogo velado. — Mas o maior, padre… Tenho tido pensamentos impuros. Muito impuros e muito negros. Percebes?
— Só percebo se me disser, não estou aqui para adivinhar.
— Crianças, padre. Crianças.
O padre quase grita.
— Se veio aqui para se divertir às minhas custas, então-
— De todo. Muito bem, sem mais preâmbulo: cedi a esses pensamentos, padre. Coisas más, muito más. Deliciosamente horríveis. Toquei, sujei e roubei inocência.
Silêncio.
— Ouça — o padre recomeça, mais calmo —, não tenho o poder de lhe perdoar tantos pecados nem tão graves. Está para lá da redenção, e não acho que tenha vindo aqui para a procurar.
— Como é que eu me chamo, padre?
— Como é que eu posso saber?!
A melodia esmorece, a aspereza intensifica-se.
— Como é que me chamo, padre?
— Não sei! Está na hora de se ir embora!
Outra gargalhada preenche a claustrofóbica prisão de madeira e metal. A voz muda para uma feminina, aguda e frágil.
— Lembras-te da Aline, padre? Claro que te lembras. Tinha apenas quinze anos. Sabias que ela sangrou?
Silêncio, desta vez mais presente. O padre sustém a respiração. Torna-se arquejante.
— Como… Quem?
— Quem sou eu, padre?
— Não sei! Não sei! Quem és? Diz-me ou sai daqui!
Desta vez, ouve-se um jovem. Doce, mas ansioso.
— E o Gaspar? Lembras-te desse pobre órfão? Desorientado por não entender a razão de ser diferente? À deriva nos seus sentimentos e num mar de solidão?
— Sai.
— E eis que surges tu, o santo bote de salvamento. Excepto que a tua madeira era podre. Só serviu para o afundar mais. Queres saber o que lhe aconteceu, depois de te teres aproveitado dele?
— Sai! Sai!
Do outro lado, o timbre torna-se mais grave e estranho, como dezenas de vozes uníssonas.
— Não, padre. Esta é a tua confissão. Não vou a lugar nenhum. — Mais uma gargalhada sonora. — Ah, mas dizia eu: o Gaspar atirou-se para a frente de um comboio. E há muitos, muitos mais. Estamos todos aqui.
O padre tapa os ouvidos.
— Sai! Sai, sai, sai, sai, SAI!
— Porque é que não sais tu? Vamos, tenta. Deita essa porta abaixo. Bate e esperneia. Pede ajuda. Vamos, padre! Foge à tua confissão! Foge do fogo, pequeno rato!
O padre tenta, mas a porta não se move. É madeira tornada granito. Sorvendo grandes quantidades de ar, sente uma dor no peito.
— Deixa-me… Deixa-me sair. Não me estou a sentir bem.
— Não sem te confessares, padre. Vamos, eu ajudo-te. Perdoa-me, carrasco, porque…
— Porque é que está tanto calor aqui? Porque é que cheira a queimado? Deixa-me sair, por favor…
— Perdoa-me, carrasco, porque…
O padre tosse abundantemente. Fumo começa a passar através da malha que separa os dois compartimentos.
— Perdoa-me… Perdoa-me, carrasco, porque pequei.
— Muito bem, padre! E quais são os teus pecados?
—São… inúmeros. Todos…”
— E o pior?
— As crianças… As crianças. Por favor, deixa-me sair!
Do outro lado, luz alaranjada irrompe ao som de gargalhadas intermináveis. As chamas consomem tudo.
— Muito bem, padre! Agora, a penitência.
Entre muita tosse, de olhos a arder e com um calor insuportável, o padre pergunta:
— Morte?
— Ah, padre, vai depender de ti. Estás a ter um enfarte. Dentro de segundos, vais aperceber-te de que não tens a medicação contigo. Vamos ver como o teu corpo reage. Agora, o acto de contrição. Repete comigo: «Pela vida que levei, sou digno de que um demónio venha buscar a minha alma».
Enquanto de um lado, agarrado ao peito com uma mão e tentando alargar o colarinho com a outra, o padre se esforça por repetir as palavras, do outro, ouve-se:
— Eu te louvo pelas tuas escolhas, colhe agora o seu fruto! — Uma mão incandescente é colocada de encontro à malha. — E agora, padre, poderás vir até mim!
A porta abre-se e o padre, afundado no banco, cai. Arrasta-se em preciosos e esforçadíssimos fôlegos até abrir a porta do lado. Lá dentro, descobre uma figura antropomórfica, sentada com as mãos nos joelhos. Não lhe consegue distinguir feições pois está inteiramente envolta em chamas. O seu riso preenche a igreja, juntamente com o fumo.
Nisto, a figura levanta-se e estende uma mão.
— Vem. Vou dizer-te o meu nome.
*
Cerca de cinco minutos depois, vinda de uma porta ao lado do altar, a voz de um homem precede-o a caminho da nave. A igreja está vazia.
— Deixou a medicação na sacristia, senhor padre.
Como nenhuma resposta obtém, depois de olhar em volta, o homem bate à porta do confessionário. — Senhor padre? Ainda aí está?
Cheira a fumo, pensa, enquanto decide abrir a porta do lado. A madeira do interior está enegrecida. E quente. No entanto, não há fumo. Sobressaltado, o homem abre a porta do confessor.
Encontra o padre, morto, com uma mão agarrada ao coração. A outra, apercebe-se antes de gritar, está completamente queimada.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
André Costa Gonçalves
André Gonçalves nasceu no Porto e cursou História e Português na Universidade do Minho.
É, entre outras coisas, autor de ficção, movendo-se dentro dos géneros romance, mistério, crime, thriller e policial. Porém, há sempre algumas ideias intrusivas que não encaixam nestes géneros, mas que pedem palco.
Na Fábrica do Terror, encontrou o espaço para lhes dar (ou tirar) vida e para verter criatividade desconcertante nas palavras.
O autor agradece o vosso tempo.







