Corpo
de Mar Ferreira
Cantar-te-ia uma canção.
E sem língua, ecoariam as palavras através da garganta. Que se danasse o sentido em favor de notas melódicas.
E sem cordas vocais, usaria as mãos. Aprenderia mil variantes da comunicação gestual, só no caso de uma te chegar desconhecida.
E sem mãos, chegar-me-iam os pés. Para aprender a segurar uma caneta entre os dedos e te escrever as prosas e poesias que cobiças.
E sem escrita, usaria desenhos. De todas as formas e feitios, para te aliciar a visão. Para os poderes ordenar e desconstruir, à mercê dos teus caprichos.
E sem caneta ou lápis ou tinta, os pés ainda serviriam para bater no chão. Um jogo rítmico de sinais de acasalamento, por todo o tempo que desejasses.
E sem pés, teríamos nós a pele. Pele que toca, esfrega, sua. Pele sensível, beijada, queimada. Pele suja, quente, desidratada. Com todos e quaisquer sabores à disposição.
E sem pele, correr-me-ia o sangue. Para manipular em várias formas, derramando enquanto assim quisesse a tua vontade, jorrando pelas veias com percurso deliberado. Até ti.
E sem sangue, teria eu ainda o corpo. Órgãos de plasticina em teu controlo. Para esborrachar, morder, abraçar ou vender. Ossos para partir entre os dedos e cortar a carne. Artérias para estender e saltar à corda.
Seria assim, meu bem, que te cantaria uma canção.
Originalmente publicado em:
https://issuu.com/aefcsh.nova/docs/nova_em_folha_mai_jun_2025
SOBRE A AUTORA
Mar Ferreira
Mar Ferreira, nascida em 2003, é licenciada em Ciências da Comunicação pela NOVA FCSH, decidindo seguir a sua paixão pela área dos livros através de um mestrado em Edição de Texto na mesma faculdade. Gosta do mórbido, do romântico e dos seus gatos.







