Da Nossa Janela

De JP Félix da Costa

 

Dois anos durou a promessa de liberdade da reforma. Íamos fazer tudo, e tu acabaste por não poder fazer nada. Agora, resta-me apenas a solidão e a nossa janela. É lá que passo os meus dias. Madrugo para chegar a tempo de ver os vizinhos saírem. Aguardo para os ver chegar. Vou seguindo vidas e vivendo com elas. Nunca nos cruzamos, mas é quase como se os conhecesse. Como se as vidas que imagino, pelo que vejo, sejam as que eles vivem.

Há um casal que me está mais perto do coração. Lembra-me muito de como éramos. Ele é o senhor António, e ela, a dona Paula. Gosto de dar nomes aos nossos vizinhos, como tu fazias.

Ah, o senhor António e a sua bicicleta. Todas as manhãs, lá vai ele a pedalar para o trabalho.

Na semana passada, tive de me levantar mais cedo. O senhor António tinha arranjado uma atividade. A princípio, não consegui perceber o que era. Começou a sair mais cedo do que o costume, com um saco de desporto a tiracolo. Lá ia ele, a olhar para todos os lados. Acordar mais cedo tinha-o tornado mais cauteloso. Como era caricato.

Não houve dia em que não saísse com o seu saco vermelho, a pedalar com esforço, mas só na última vez que o vi com ele é que descobri o que o senhor António andava a fazer. O saco estava arredondado, como se lá dentro estivesse uma bola, e parecia bem pesada. Eu a pensar que ele ia ao ginásio, e afinal era bólingue. A minha imaginação é que cria estas coisas. Comecei logo a visualizar o senhor António a juntar-se a um grupo de amigos e a atirar umas bolas antes do trabalho.

Não o voltei a ver com o saco, depois desse dia. Estava até à espera de o ver com um novo. O velho, vi-o dentro do contentor, quando fui levar o lixo, e estava todo manchado. Não admira que ele o tenha deitado fora.

O senhor António voltou à rotina anterior. Não sei o que se passou para não voltar a jogar, nem sei se alguma vez o irei saber. Não consigo imaginar nada que não me deixe triste. Sinto falta de o ver sair tão elétrico e irrequieto. Cheio de vida. Também sinto falta da dona Paula, que todos os dias me acenava, sorridente, da janela. A princípio, receei que ela o tivesse deixado, depois daquele arrufo, no início da semana passada. Até dentro da minha casa conseguia ouvir os gritos e as coisas a partir. Mas, como o carro dela continua estacionado no parque, lá em baixo, deve estar tudo bem. Se calhar, adoeceu. Vou aguardar para a voltar a ver. Lembra-me tanto de ti.


SOBRE O AUTOR

JP Félix da Costa

Apaixonado por livros desde o primeiro dia em que um lhe caiu nas mãos, JP (João Pedro) Félix da Costa tem nutrido o gosto pela escrita. Pelas circunstâncias da vida, esse caminho foi ficando perdido em fragmentos de textos e histórias que guarda para mais tarde terminar. Mais de quinze anos volvidos sobre a publicação de um livro juvenil, procura agora recuperar o tempo perdido e entregar-se às Letras para fazer o que mais gosta, dar vida aos mundos e histórias que lhe fervilham na imaginação, desde histórias para crianças a histórias do mais profundo horror.

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