Desejos (Quase numa Hipótese)
de Sofia Alexandra
Se eu tivesse de matar alguém, fá-lo-ia de uma maneira dramática.
Que piada têm esses linchamentos de matadouro? Centenas de vidas diferentes ceifadas como se fossem iguais e sem paixão alguma. Isso não me interessa. Se fosse para tirar a vida a alguém, faria com que valesse a pena. Com que valesse a pena cada segundo de preparação para o derradeiro momento, em que me sentiria como Deus — afinal, é isso que Deus faz, não é verdade? Levar vidas consigo de maneiras teatrais. Foram os humanos que banalizaram a morte; que a tornaram vulgar. Deus faz com que cada morte pareça especial. E então, nesse momento, realizaria o penúltimo ponto da minha lista de desejos.
Desejo. Que desejo peculiar: homicídio.
O processo seria algo específico, não me contento com qualquer coisa.
Em primeiro lugar, teria de arranjar um motivo. Porque é que haveria de escolher uma vida inocente? Mais interessante seria encontrar alguém corrupto, negligente — podre. É esse o tipo de pessoa que faz sentido estar sete palmos abaixo da terra. Acabariam assim os problemas de moral — mas quem é que ainda respeita valores hoje em dia? Isso. Talvez um presidente da câmara de uma terriola qualquer. O homem mais ranhoso que encontrasse. Um senhor de cerca de cinquenta anos, de cabelos acinzentados e madeixas brancas, com uma mulher e dois filhos licenciados, cheio de dinheiro que roubou aos pobres coitados que lhe delegaram o poder.
Depois de decidir o cordeiro a abater, afundar-me-ia nas almofadas acolchoadas do sofá. A televisão à minha frente, apoiada num móvel de madeira escura envernizada, estaria a dar o noticiário, com mais mentiras do que verdades, e na rua uma mão cheia de fregueses andaria numa azáfama para voltar ao seu lar. Ouvir-se-iam as buzinas da canalha frustrada, a descarregar num qualquer atadinho que não sabe pisar o acelerador, e subitamente surgir-me-ia o plano pormenorizado na cabeça.
O presidente está a fazer a sua caminhada habitual: sai da porta de casa, atravessa a rua para o outro lado — ignorando a passadeira — e, ao saltar para o passeio, tropeça nos próprios pés. As ruas por onde passa tentam avisá-lo do seu fado, sem sucesso. No cruzar da segunda esquina, torce o tornozelo numa pedra solta da calçada e, mesmo assim, continua. Já perto do jardim municipal, onde passa a vida, um gato preto passa-lhe pelo raio de visão, e ele comenta para consigo o quão bonito é o animal.
O fraco personagem entra por um carreirinho para dentro do jardim. As árvores fazem arco, como que a emoldurá-lo no seu caminho para o calvário. As nuvens subitamente trancam o sol na sua prisão acinzentada, e as poucas pessoas que passeiam pelo jardim fogem como que puxadas por uma força: Algo que não quer que elas vejam o que está por vir; Algo que sabe que eu planeio algo poderoso. Os olhos do homem incidem num banco de madeira gasto pelas nádegas dos reformados, e ele senta-se a contemplar o «lago dos patos», que a única coisa que abriga é cadáveres de peixes.
Aí, entro eu; a única pessoa que ainda deambula (estava claramente à espera de que ele chegasse) pelo jardim naquele momento. «Boa tarde, senhor presidente. Como vai? O seu Diogo sempre conseguiu entrar para o mestrado?» Ele sorri. Claro que sorri. Nas minhas mãos, está um livro de poesia: Álvaro de Campos. «Já ouviu falar de Álvaro de Campos, senhor presidente?» Ele assente com a cabeça e faz um comentário do género: «Esse não era amigo de Fernando Pessoa?» Ele sabe que Algo o mandou para ali. Sabe que alguma coisa não está certa, mas essa força mantém-no colado ao banco de madeira. A faca na minha mão reluz com a incidência do único raio de luz que atravessou as nuvens. «Quero mostrar-lhe o meu poema favorito.» Enquanto abro o livro e procuro a página certa, ele permanece estático. «Leia, por favor.» Os olhos dele começam a verter enquanto a lâmina passeia pelos seus braços, e ele declama os versos do heterónimo. «Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade./Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.» Faz breves pausas à procura de clemência e, já a entrar na última estrofe, cala-se. A faca de cozinha enterra-se no peito dele, e o meu livro, envenenado de sangue corrupto, cai no chão. Depois de lhe sacudir a areia, pego nele e declamo os versos que restam. «e o universo/Reconstruiu-se sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.» Sorrio eu também. Fechado o livro, e depois de o pousar no banco, cravo a faca no meu peito também.
Este final seria o mais interessante.
Não há nada mais mágico do que um final trágico.
SOBRE A AUTORA
Sofia Alexandra
Sofia Alexandra não cresceu em Lisboa e, desde muito pequena, adora escrever. A maior parte das vezes que fecha os olhos para dormir tem pesadelos, e encontrou na escrita uma forma de os vencer; contá-los a outras pessoas.
Licenciada em Jornalismo, procura um dia poder viver daquilo que verdadeiramente gosta de fazer. Até lá, tudo o que se precisa de saber sobre a autora é que, na verdade, não se chama Sofia.







