Desglossário
de Nuno Gonçalves
Ele gostava de ficar horas a admirar o movimento dentro dos frascos de vidro. Enchiam já quatro prateleiras e, dentro de cada um, algo se agitava. Não era fumo ou luz, era apenas «algo».
Por fora de cada frasco, uma etiqueta com uma única palavra.
«Sangue»: lá dentro, uma coisa vermelha pingava para depois escorrer paredes acima e voltar a pingar.
«Bater». «Correr». Os verbos, como é sabido, têm mais arestas. Chocam contra o vidro do frasco em ziguezagues irrequietos.
Enquanto admirava os movimentos circulares de «Cinto», o homem sentiu a presença da esposa atrás de si, ainda antes de ela se fazer anunciar.
— Que queres? — perguntou, sem se virar.
— Preciso de… de…
Olhou para ela, com a boca a abrir e a fechar sem nada lhe sair.
— Ajuda — completou ele.
Ela acenou que sim.
Seguiu-a para a cozinha. A mulher apontou para um frasco de azeitonas. Ele sorriu e abriu o frasco com facilidade.
— Desculpa. Obrigada.
Quando voltava para o escritório, ouviu-a dizer, murmurando para si própria:
— Tinha esperança de conseguir, desta vez.
O homem regressou à cozinha e ficou a fitá-la. Ela mantinha o olhar no bacalhau à Brás e os lábios cerrados.
— Repete isso, por favor.
A mulher sussurrou para dentro da frigideira.
— Não disse nada.
— Repete.
— Tinha esperança de conseguir — repetiu.
— Vem.
Ele sabia que a esposa o seguiria, sem ser preciso acrescentar mais nada. Sentou-se à secretária e preparou o aparelho.
Ela sentou-se à frente dele, colocou o queixo na mentoneira e abriu a boca, ligeiramente.
— Abre mais.
Ela abriu.
Com a pinça, ele puxou-lhe a língua para fora, prendeu-a com a banda elástica, digitou algo no teclado e esperou, já com um frasco a postos.
Como seria aquela nova aquisição? Flutuaria? Quedaria pesada no fundo? Seria espinhosa ou globosa? E a cor? Seria verde? Ou teria uma cor inesperada?
Enquanto as agulhas se iam espetando na língua da mulher, ele escreveu na etiqueta:
«Esperança».
SOBRE O AUTOR
Nuno Gonçalves
Nuno Gonçalves devora livros há 30 anos. O prazer da leitura fez crescer a vontade de um dia ver as suas próprias palavras no papel, encadernadas, à espera de um leitor. O caminho escolhido foi outro, e a Medicina atraiu-o mais do que as Letras. Manteve a ligação à literatura, retomando os hábitos de leitura e dinamizando um blogue de crítica literária durante alguns anos. Depois de iniciar uma nova caminhada na escrita de ficção, venceu o prémio António de Macedo em 2022 e foi o finalista português do concurso de microcontos da EACWP em duas ocasiões (2022 e 2023).







