Diagnóstico de Schrödinger

de Nuno Gonçalves

 

 

O envelope da clínica chegou na data certa. Agarrou-o, deu-lhe a volta um par de vezes, confirmou o nome e esboçou o gesto de o abrir.

Lá dentro, estaria a palavra «negativo» ou a palavra «positivo»; estaria alívio ou culpa, alegria ou pânico. 

Acabou por guardá-lo no bolso, fechado.

Olhou para a sua esposa no sofá, a ver a mesma série de sempre. Reparou que ela tinha boa cor, saudável, rejuvenescida. Ou talvez estivesse cinzenta, com o pus das lesões no rosto disfarçado pela maquilhagem. Queria dizer algo que a fizesse rir, mas as gargalhadas já se tinham calado há alguns anos.

Nessa noite, sentiu que tinha uma segunda oportunidade e admirou o seu reflexo, a pele bem conservada para a idade, imaculada. Ou viu como as chagas se alastravam e confluíam, a grande úlcera na ponta do pénis a colar-se aos boxers, a incorporar fiapos de tecido que teriam de ser retirados com uma pinça, sentado na sanita, a morder os lábios para não gritar.

De uma forma ou outra, o táxi estaria à porta às duas da manhã, como sempre.

Quando a hora chegou, a mulher dormia. Estavam abraçados ou afastados por um fosso de dois palmos de colchão frio.

Levantou-se, vestiu-se, saiu de casa e entrou no táxi. Cumprimentou o motorista ou não lhe disse nada. O destino era o mesmo.

Pouco falaram. Pouco havia a dizer. Deu-lhe gorjeta ou pagou apenas o valor acordado. Saiu para a rua com o andar ligeiro ou atrapalhado pela dor nos joelhos e mastigando um dente que acabara de se soltar.

O porteiro cumprimentou-o, e o homem disse:

— O Miguel prometeu que iam chegar umas novas.

O porteiro anuiu.

— Quão novas?

O porteiro arreganhou os dentes e abriu a porta.


SOBRE O AUTOR

Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves devora livros há 30 anos. O prazer da leitura fez crescer a vontade de um dia ver as suas próprias palavras no papel, encadernadas, à espera de um leitor. O caminho escolhido foi outro, e a Medicina atraiu-o mais do que as Letras. Manteve a ligação à literatura, retomando os hábitos de leitura e dinamizando um blogue de crítica literária durante alguns anos. Depois de iniciar uma nova caminhada na escrita de ficção, venceu o prémio António de Macedo em 2022 e foi o finalista português do concurso de microcontos da EACWP em duas ocasiões (2022 e 2023).

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