Em Prol do Género

de Maria João Amaral Graça

 

Sempre me senti envergonhada com a inautenticidade dos meus textos. Escrevia palavras atrás de palavras, mas nunca tive a certeza de serem bem interpretadas. Considerava-me uma fraude cada vez que tentava descrever emoções abstratas, cenários sombrios que viviam na minha mente e cheiros que nunca me passaram pelo olfato. 

Hoje de manhã, decidi que deveria escrever com mais realismo. Dar vida aos ensinamentos que absorvi nas oficinas literárias. Pensei que, talvez assim, a minha escrita se tornaria interessante e, quem sabe, deixasse de ser rejeitada. Sinto um arrepio perverso de excitação. Finalmente, vou mostrar em vez de contar. Serei a única escritora no mundo com coragem suficiente para desafiar os limites, livre do risco dos parágrafos artificiais.

Abro a gaveta da cozinha e retiro uma faca. Afiada. Levanto a manga da camisa e, de lábios cerrados e olhos semiabertos, afundo a lâmina na pele, corto um pedaço do meu braço esquerdo e levo-o à boca.

Rapidamente, agarro na caneta ao meu lado e numa folha de papel, antes que o choque me apague os sentidos. Sento-me no chão frio de mármore. Tento controlar os espasmos que atrapalham a redação, enquanto a carne exposta lateja, ensanguentada. Agora, sim, sei que estou a mostrar, quando escrevo que um odor metalizado e quente se entranha pelas minhas narinas, que um líquido pastoso e escarlate escorre pelo meu corpo, e que a avidez por produzir um bom texto me faz degustar um sabor amargo e doce ao mesmo tempo.

A dor é o preço da perfeição. Os meus leitores merecem o melhor de mim, e é isso que estou disposta a dar-lhes. Sorrio, enquanto limpo as lágrimas com a mão direita. Nem sei se serão de dor ou de felicidade. Inspiro fundo e aproximo a lâmina da minha perna, tão longa quanto o próximo parágrafo. 

Termino a última frase e releio-a com os olhos já turvos. As palavras vibram com uma autenticidade cruel, mas o conteúdo ainda me parece fraco.

Olho fixamente para a folha manchada e um vazio gélido instala-se no meu peito, sobrepondo-se à ânsia de mutilação. A estrutura está impecável, o tom é perfeito, os cheiros são reais. O que estará a faltar para que o conto vá além do choque gratuito? 

É então que me lembro. Para que o sangue tenha contexto, preciso de um bom clímax. 

Ergo a faca novamente. Sinto a lâmina pressionar a carótida, que pulsa frenética contra o metal frio. Toda a escrita realista exige perseverança. E sacrifício. Este é o meu compromisso com a literatura de terror.


SOBRE A AUTORA

Maria João Amaral Graça

Maria João Amaral Graça nasceu a 21 de junho de 1976, em Lisboa, onde vive atualmente.
Desde pequena que gosta de contar histórias, sejam elas para miúdos ou graúdos. Colaborou na coletânea Que Não se Calem as Mãos, com o conto «Barriga Milionária», no decorrer de um curso de escrita criativa. Neste momento, é membro do Clube dos Writers, com a mentora Analita Alves dos Santos.


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