Está Tudo Bem
de Telma Cebola
Está tudo bem, dizes para ti, enquanto Ele espeta mais uma faca no teu coração e o rasga, abrindo uma nova ferida profunda. Ainda estavas a recuperar da última. Passou pouco mais de um mês — nem tempo houve para cicatrizar.
O sangue pinga para o chão. As gotas de vermelho-vivo juntam-se ao rasto antigo, já escuro, já seco, entranhado no soalho.
O teu coração já nem forma de coração tem. É um emaranhado de cicatrizes — algumas recentes, outras muito antigas — fruto de anos em que Ele o dilacerou, vezes sem conta, com a mesma faca.
Por vezes, faz uma pausa. Um ano, talvez. Dois, em ocasiões raras. Mas, desta vez, nem isso. Não aguentou uns míseros meses.
Ainda estavas a recuperar da última ferida, e lá veio Ele outra vez, rasgar o pouco que resta.
Não sabes como continuas vivo. Depois de tantos anos de dor e sangramento interno, é quase admirável que o teu coração resista.
Já pensaste em acabar com tudo. Mais do que uma vez.
Mas não. Ele dá-te esperança. Faz-te acreditar que haverá um fim para o sofrimento. E tu, numa espécie de síndrome de Estocolmo, acreditas. Deixas-te levar pela promessa. Só para, mais cedo ou mais tarde, Ele te voltar a rasgar por dentro.
Rasga.
Remenda.
Rasga outra vez.
E tu voltas à tua lengalenga — em busca de absolvição, em busca de paz, de um sentido para tudo isto.
«Pai Nosso que estais no Céu…»
Mas não tens resposta.
E repetes, em silêncio, dentro de ti:
Está tudo bem. Está tudo bem…
[Podes deixar que a morte me leve?]
SOBRE A AUTORA
Telma Cebola
Telma Cebola nasceu em Cascais no ano de 1985. O terror esteve sempre presente na sua vida, especialmente na vertente literária (tem toda a coleção Arrepios) e cinematográfica (passou a adolescência a ver filmes de terror de qualidade duvidosa). Escreve para libertar os seus demónios e vê na escrita uma espécie de terapia, em que a mente a obriga a passar para o papel os pensamentos menos sãos que tem. Talvez um dia esses pensamentos se transformem num livro.







