Felizes os Mortos

de Nuno Rosalino

 

e o cinto de couro coçado do pai, pendendo frouxo das costas da cadeira torta, e a caçadeira encostada, e a garrafa de aguardente, verde, baça, a meio

e os madeiros da entrada, e o caminho de ferro que se embrenha nas entranhas da terra

e a tosse que teima, e o querer encher os pulmões em pleno, e a aflição de não conseguir, de ficar sempre aquém

mas os filhinhos

e o sermão de domingo, e o Céu, a salvação, e os cânticos, e o dar de mãos, e o trabalho e a paz e o sacrifício

e o mal da terra

e a mãe, chorando baixinho debruçada sobre o fogão, a secar as mãos ao avental de pano

e o bruxulear do lume na lanterna, e as traves que rangem queixumes e arcam com o peso da montanha, e o medo

mas os filhinhos

e as costas vergadas, doridas, e os dedos que incham, agora grossos como estacas

e o sermão de domingo, e o Céu, a salvação, e a voz do pastor, estentórea, impoluta de dúvida, a sotaina limpa, mas negra como carvão, e o sacrifício e o que cumpre fazer, e os demónios e a salvação, sim, a salvação, e a paz

e o mal da terra

e as duas cruzes de pau no quintal, toscas, e as lágrimas e o alívio e a culpa

e o canário hirto no fundo da gaiola, e os escombros, e neles o silêncio e o nada e um perfeito contentamento

quebrado pela luz

e a água que corre negra ao lavar as mãos calejadas, e o cuspo preto, os pulmões expulsando o malsão

o destino dos filhinhos

e o sermão de domingo, e o Céu, a salvação, e a voz do pastor, cheia de certezas, e o que cumpre fazer, e a solução, sim, a solução e o sacrifício

e a caçadeira, e a solução, e o Céu, não mais a terra e a montanha, e o sacrifício

e o cuspo preto e a aguardente e o cinto e as lágrimas

e os disparos, sim

a salvação, os gritos, sim

mas os filhinhos no Céu, salvos agora

do mal da terra

seis anjinhos, sim,

por um sacrifício de seis balas

e do seu lugar ao lado deles

pendurado de um cinto de couro coçado, sim,

entre cruzes toscas de pau

SOBRE O AUTOR

Nuno Rosalino

É tradutor e revisor profissional, vadio amador e mestre em Tradução Literária (não-praticante [cédula caducada]).
Vive na Inglaterra com a parceira e o gato, onde magica planos para ser o iconoclasta da diáspora.
Escreve porque não resta mais nada.

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