Festa de Empresa
de Patrícia Lameida
Lá vai uma…
«Nunca uses saia.»
O conselho da mãe fazia eco na dor que lhe preenchia o raciocínio. Catrina sempre achara um exagero, excesso de zelo vindo de uma geração que tinha sido criada de trancas na porta.
Era difícil mexer-se. Sentia que alguma coisa lhe descia pela coxa, talvez fosse sangue. O cheiro metálico que lhe entrava pelo nariz confirmava que, algures, haveria sangue. Se não vertesse do que lhe rasgaram à força, escorreria de um dos vários cortes que ia identificando. Foi o grito que acabou de a despertar.
Lá vão duas…
Filhos da puta. Se não consigo fugir, ao menos grito.
Primeiro, gritei palavras. Não fui muito inventiva (uma rapariga cercada por dez marmanjos de fato tem pouca energia para a eloquência). «Socorro», «ajudem», e pouco mais além de berros soluçados pelo susto. Agora, grito de raiva. Vejo-os espalhados pelo piso, em canções e danças trôpegas de fanfarronice, semidespidos como uma lembrança, uma ameaça. E vejo as outras.
Cabrões. Enquanto tiver voz, grito.
Três pombinhas a voar.
Há três dedos no chão, caídos sobre a pilha de roupa que lhe arrancaram do corpo. Sónia sabe que são seus pela poça de sangue debaixo da mão que não se atreve a erguer. Escondeu-se. Quando cercaram a Catrina do marketing, correu para a porta. «Merda», «estúpida» e «como foste acreditar no convite?», recriminações que chocavam com o pânico que lhe preenchia os pulmões. Nunca levara as ameaças a sério. Não podiam ser a sério.
A porta rangeu, mas manteve-se trancada, e Sónia escondeu-se debaixo de uma secretária. Acharam piada e chamaram-lhe puta-mor enquanto penetravam, mordiam, cortavam. «Espero que morra depressa.»
Uma é minha…
Ou o álcool está a evaporar, ou chegou-lhes o cansaço ao corpo. Parecem hienas, a cheirar os corpos que espalharam, desfeitos, pelos cantos do escritório. Continuo a gritar, mas devo soar a música ambiente. As facas. Trouxeram facas, os cabrões. Brilham de vermelho sob as lâmpadas que tremem. Degolam a Catrina.
Outra é tua…
A Sónia. Demasiado competente. Nunca cedeu um orçamento que não fosse fundamentado ao cêntimo. Costumavam cuspir depois de a deixarem passar.
Atiraram-na contra uma coluna quando se fartaram. Agora, erguem-na pelo cabelo, pontapeiam-lhe o ventre. Não consigo erguer mais a voz. O que grito ouve-se rouco quando puxam a lâmina, a mesma com que lhe abriram o peito.
Outra é de quem a rasgar.
SOBRE A AUTORA
Patrícia Lameida cresceu entre livros, aventuras e novos mundos. Escreveu, desde cedo, poemas e pequenas histórias que esqueceu com o tempo. A vida divergiu do mundo das letras durante a sua formação e entrada no mercado de trabalho. Não tardou a reencontrar esta paixão, mantendo um blogue de crítica literária durante vários anos e escrevendo pequenos textos, alguns dos quais poderão ser encontrados em antologias como o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas e Não Vão os Lobos Voltar e em revistas literárias como a Palavrar.







