Filho Querido

De Lewis Medeiros Custódio

 

 — Desculpa pelo transtorno. Estás bem nessa cadeira?

— Sim.

— De certeza?

— Sim, senhor.

— Vamos conversar um bocadinho, pode ser? Ajuda-me só a perceber o que aconteceu.

— A perceber o quê?

— Sabes por que é que estás aqui, não sabes?

— Não. Eu vim no carro, e os seus amigos deixaram-me aqui.

— Qual é a última coisa de que te lembras antes de vires para cá?

— Estava no meu quarto.

— E lembras-te do que estavas a fazer?

— A brincar.

— Jogos de vídeo? 

— Não. Não gosto muito disso.

— E antes de estares a brincar, lembras-te de alguma coisa?

— Lembro-me do barulho.

— Como é que foi o barulho?

— Alto. Muito alto.

— E sabes de onde vinha?

— Sim. Vinha da cozinha.

— E sabes dizer-me o que era?

— Sim, senhor.

— Queres um copo de água antes de continuar? Um sumo?

— Não, senhor. 

— Quantos anos tens, Miguel?

— Faço nove anos amanhã!

— De certeza que não queres um sumo?

— O senhor é médico, não é?

— Não, estou aqui só para avaliar, para perceber o que aconteceu. Estás seguro aqui.

— Parece um médico, só falta a bata.

— Vamos continuar. Sabes o que foi o barulho, não é?

— Sim.

— E sabes como aconteceu?

— Sim.

— Foste tu? 

— Não, eu sou pequenino.

— Consegues dizer-me o que é que aconteceu?

— Sim.

— Então, estavas lá.

— Não, as vozes ficaram comigo durante o barulho.

— As vozes?

—Sim. Eu sempre ouvi as vozes. Todos os meninos ouvem.

— Consegues ouvir essas vozes agora?

— Não.

—De quem eram as vozes?

— Dos nossos amigos.

— Nossos? Teus e de mais quem?

— Da minha mãe.

— Podes falar-me da tua mãe?

— Eu adoro a mamã! Ela brinca comigo todos os dias quando o pai não está. E o pai está quase sempre fora. Diz que fica a trabalhar, mas volta a cheirar mal.

— Mas a tua mãe morreu num acidente de carro quando tu eras bebé. Sabes isso, não sabes, Miguel?

— Isso é mentira!

— Porque é que é mentira?

— Porque a mãe está sempre comigo. Ela não morreu num acidente.

— Está aqui agora?

— Claro! E não foi num acidente! O pai bateu-lhe muito quando ela lhe disse que eu ia ter uma irmã, e ela já não acordou. Foi ele que a pôs no carro e fez o carro cair da falésia. Mas ela voltou para mim! Eu sou o menino dela! 

— Essas são palavras muito adultas, Miguel. Alguém te disse isso?

— Sim. Foi a mamã.

— Quando?

— Agora. Ela está aqui.

— Mas tu disseste que as vozes não estavam aqui.

— Os amigos da mamã não, mas a mamã está sempre.

— Mas não estava durante o barulho.

— Não. O barulho foi ela.

— A tua mãe fez o barulho?

— Mais ou menos. Ela ficou zangada com o pai desde que ele a pôs dentro do carro. E quando o pai me voltou a bater ontem, ela disse que eu tinha de ficar com as vozes no quarto.

— Miguel, o que é que aconteceu na cozinha?

— A mãe fez a motosserra do pai ligar-se e cortou-o muito devagar. Ele gritou muito.

— Porque é que estás a sorrir?

— Por causa do que a mamã disse agora.

— O que é que disse a «mamã»?

— Ela acha que o senhor é engraçado.

— Engraçado como?

— Ela não quer que eu diga. Quer falar com ela?

— Miguel, a casa estava toda trancada por dentro… Foste tu que fizeste aquilo ao teu pai?

— Eu não.

— Diz-me quem foi.

Fui eu!

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE O AUTOR

Lewis Medeiros Custódio

Nascido na paradisíaca ilha de São Miguel, nos Açores, foi aluno do Conservatório de Ponta Delgada, onde aprendeu piano. É licenciado em Línguas Modernas e mestre em Ensino pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ser judoca, guitarrista e fotógrafo. Desde cedo, desenvolveu uma paixão pelo terror e pelo macabro, mergulhando nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King. A emoção visceral desse universo tornou-se uma obsessão que contagiou todos os meios que consome — da literatura ao cinema, da música aos jogos.

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