Gávea
De JP Félix da Costa
«Vai para o cesto da gávea!»
Olho o comandante nos olhos. Ele sabe bem o que está a ordenar, e eu sei bem porquê. Desde que zarpámos que a tripulação demonstra o seu ódio e desprezo por mim. Os filhos pagam os pecados dos pais. Era ele que devia estar agora a subir ao mastro, mas safou-se ao ser enterrado, seis palmos abaixo da terra no cemitério da vila que o viu nascer.
O que ele fez é imperdoável. Que ninguém me pergunte o quê. Só de o mencionar afloram-se-me memórias que procuro enterrar no fundo da mente. Hoje, pago o preço do amor doentio que me trouxe a este mundo e que vaticinou à minha mãe uma morte precoce. Sofri às mãos dele no passado. E sofro em seu nome no presente.
O comandante não arreda da sua posição. Ao longe, aproxima-se uma tempestade, e eu sei bem o que ele pretende. Lá, no ponto mais alto, a agitação do mar sente-se como em nenhuma outra parte do navio. Casos houve de marinheiros arremessados da gávea pela violência das ondas. Vejo nele a expetativa de me ver subir, e de não me ver descer. Olho em volta e, nos olhos dos que me cercam, vejo um desejo de que a tempestade me engula e de que o mar não me devolva à terra.
Não artículo uma palavra. Não sei se ele esperava que me atirasse a seus pés e lhe suplicasse para não subir. Que me entregasse a um qualquer castigo que a sua mente deturpada me reservasse, pela minha recusa.
Não lhes dou essa satisfação. Dirijo-me ao mastro e inicio a escalada. Nem me preocupo em olhar para trás. O silêncio mantém-se enquanto a surpresa da minha atitude não dissipa.
A mudança ocorre quando já estou alto, mas não alto o suficiente para não ouvir as celebrações. Ignoro-as. A minha preocupação foca-se em chegar ao topo e prender-me o melhor que puder.
Ao longe, rolando lentamente na nossa direção, vejo nuvens de um negro sepulcral, e conto o tempo até sermos engolidos por elas.
A chuva antecipa-se às ondas e ao vento e começa, de súbito, a fustigar o navio. Assomo-me ao rebordo do pequeno cesto e, lá em baixo, vejo a tripulação a preparar-se para o que se aproxima. O navio é sacudido violentamente. As ondas fazem a sua entrada e a chuva encharca-me até aos ossos. Agarro-me à madeira, cravando-lhe as unhas. A força do vento a embater no barco é de tal ordem que quase me atira borda fora. Tenho os dedos brancos do esforço que faço para me segurar. As dores são imensas, mas ignoro-as. Sobreviver é o mais importante.
Estou no limite das minhas forças. O cansaço amarou no meu corpo, e a tempestade não dá tréguas. Sinto que o comandante vai conseguir o que queria.
Subitamente, abate-se sobre nós uma acalmia que não parece deste mundo. O navio está estático. Ouve-se apenas o ranger da madeira. O ar torna-se pesado e espalha-se um odor pútrido a morte. A tripulação assoma-se à coberta, com o espanto a impor o silêncio.
Do alto, vejo o primeiro. Um corpo massivo, do tamanho de três homens musculados, agarra-se ao barco. Consigo ouvir o rasgar da madeira enquanto a criatura trepa pela amurada. Seguem-se outras, por todos os lados. Ouço os gritos dos marinheiros quando as criaturas chegam à coberta. O sangue pinta-a de vermelho.
A visão da morte daqueles que me queriam ver morto não me agrada em nada. Em especial uma tão horrenda.
O silêncio regressa. Não arrisco espreitar. Encolho-me, como me encolhi antes de nascer. Sinto todas e quaisquer vibrações no mastro. Aguardo que o peso de uma das criaturas o faça abanar, prenunciando a minha morte.
Nada acontece.
A chuva regressa, pouco depois. As ondas embatem no navio, galgando a amurada e varrendo os vestígios do massacre borda fora. Os corpos já lá não estão.
Apesar de assolado pelo medo, consigo segurar-me nesta nova investida da tempestade. Faço-o até ser noite longa, quando a calma regressa. O meu corpo dorido reclama descanso. Mesmo sem posição, adormeço.
*
O sol cega-me os olhos. O dia já nasceu e, no horizonte, vejo pássaros. A costa não deve estar longe. Com esforço, contrariando um corpo que se recusa a mexer, desço pelo mastro. O navio parece vazio. Percorro-o da proa até à popa. Da coberta até ao porão. Não encontro sinais do capitão ou de qualquer outro marinheiro. Apenas eu resisto, salvo por uma condenação à morte.
Procuro marcas de garras, provas deixadas na madeira, mas não as encontro. Contar o que testemunhei garantir-me-ia um atestado de loucura.
Quando avisto terra, abandono o barco. Um navio sem vivalma alimenta as superstições do povo, mas um com apenas um marinheiro exige explicações que não tenho.
Afasto-me o mais que posso. Dirijo-me para uma zona onde não vejo vida ou povoações. É assim que deixo o mar. Para sempre. O marinheiro que, um dia, fui também morreu naquele navio.
SOBRE O AUTOR
JP Félix da Costa
Apaixonado por livros desde o primeiro dia em que um lhe caiu nas mãos, JP (João Pedro) Félix da Costa tem nutrido o gosto pela escrita. Pelas circunstâncias da vida, esse caminho foi ficando perdido em fragmentos de textos e histórias que guarda para mais tarde terminar. Mais de quinze anos volvidos sobre a publicação de um livro juvenil, procura agora recuperar o tempo perdido e entregar-se às Letras para fazer o que mais gosta, dar vida aos mundos e histórias que lhe fervilham na imaginação, desde histórias para crianças a histórias do mais profundo horror.







