Hora do Chá

de Miguel Ângelo Gonçalves

 

Quebrou a promessa e não voltou. No seu lugar, apareci eu.

A mesa apodreceu. Está agora coberta de chávenas vazias, torradas bolorentas e peças de porcelana rachadas.

O Arganaz — ou o que resta dele — dorme num bule estalado, sussurrando palavras esquecidas aos convivas.

O Coelho perdeu os olhos, mas ainda segue apressado para um encontro ao qual nunca chega.

A Lebre canta com a garganta rasgada, enquanto o Chapeleiro ri sem parar.

Quando me sentei à mesa, ofereceu-me chá.

Era vermelho. Deixava um travo a ferrugem na língua.

— Adoça-o — disse-me entre risos, enquanto me passava o açucareiro.

— Vais ver que escorrega melhor. — A voz da Lebre saía-lhe da abertura no pescoço.

Havia pequenos pedaços amarelados entre os grãos. Um dente flutuou até a superfície enquanto eu mexia. 

Sorri, por educação.

Agora, como anfitrião, cabe-me a mim receber-vos. E o chá nunca acaba.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE O AUTOR

Miguel Ângelo Gonçalves

Miguel Ângelo Gonçalves nasceu no Porto, Portugal, nos anos 80.
Cresceu com banda desenhada, livros de fantasia e de terror — bem como filmes — e com bandas de rock.
Desde muito novo que escreve, sobretudo para si próprio, e as suas histórias são uma mistura de terror, thriller e serial killers, com algumas delas a aventurarem-se no espectro sobrenatural do terror.
Passa o seu tempo livre a jogar roleplaying games, a ler e a beber café.
É o autor de The Scarecrow Man, que foi publicado na antologia da Dark Pine Publishing e independentemente como minilivro.
Se estiverem no Porto, é provável que o encontrem num Starbucks a ler ou a rabiscar num caderno.

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