Restos

de Maria Leonilda Pereira

 

Plantaste a desilusão — nasceram abrolhos.

Jardim de escolhos na pedra da calçada,

o pé sangra antes de pousar.

 

Rejeito o teu vigor — sexo sem amor.

Não semeies em mim o que em ti já morreu.

 

És deserto quente onde tudo fenece.

Beijos lambuzados de corpos alheios,

ecos de fome que não se sacia.

 

Quimeras de amor —

iludido, ferido, gasto —

fruto aberto antes do tempo.

 

Desaparece. Cala-te.

Da tua boca — espuma de nada,

um sopro que azeda o ar.

 

Desconcerto de quem nada acerta,

mas lança sementes cegas

e espera milagres da terra.

 

Semente fraca, perdida

nos labirintos da terra infértil,

onde algo se mexe —

mas não floresce.

 

Perfeito. Estamos bem:

cada qual colhe no seu jardim.

 

O nosso fim.


SOBRE A AUTORA

Maria Leonilda Pereira

Licenciada em Filologia Românica, foi professora de Português do Ensino Secundário. Promoveu a escrita e a leitura, na escola e fora dela, através de oficinas de escrita criativa e leituras encenadas.

Colaborou na antologia anual Olhares da Lua. Publicou Da Minha Janela e A Gargalhada do Medo.

As palavras adoçam-lhe os dias.

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