Magnum Opus
de Edgar Ascensão
Vi compulsivamente todos os documentários sobre serial killers que havia no streaming. Todos. Nem um me deixou satisfeito. Achei-os vagos, sem ambição, estupidamente básicos. E que irritação ganhei ao saber como aqueles pacóvios foram descobertos e apanhados. Eu queria sobressair, superiorizar toda uma galeria de assassinos icónicos. Tinha uma missão.
Comecei pelo brutamontes, 2,11m, 230 kg, campeão nacional de pesos-pesados e cliente habitual da mercearia do meu bairro. A partir dele, fui selecionando as minhas vítimas consoante o peso e tamanho. Cada um mais pequeno, cada um mais magro, mais fraco.
Quando chego à cave, o AC mostra-me os gélidos 5° necessários para conservar os cadáveres. Retiro-lhes cuidadosamente a pele do resto da carne, com um corte minucioso para não desfazer a epiderme, que deverá ser retirada com a derme. É preciso formar uma só peça, de uma só vez. Um lençol orgânico e ondulante, que me fascina ao olhar.
Os químicos que uso para conservar e endurecer a pele combinam com a camada de gel solidificante que aplico para engrossar o interior de cada casulo. Finalizo com os vernizes para cabedal e deleito-me com a descrição da embalagem: «Prolonga a vida útil do couro. Não racha nem descasca. Confere um revestimento impermeável e um aspeto brilhante. Recomenda-se duas demãos». A textura fica perfeita.
Passo as mãos pelo artefacto e conto os invólucros caçados ao longo dos meses. Cosidos a fio grosso de algodão preto trançado, lentamente, ponto a ponto, para fechar cada casulo. São agora sete, mas ainda faltam alguns até terminar. Afago novamente as peles, encaixadas umas dentro das outras, e o meu coração bate mais rápido. Quero despachar-me, mas não me quero apressar. É preciso paciência para operar o meu desígnio: criar uma verdadeira matriosca humana.
Precisava de mais umas quantas para chegar ao fim. Encontro-as na rua, inocentes, saudáveis. Primeiro, o lingrinhas da bomba de gasolina, 1,62 m. Em seguida, a miúda do minimercado, vidrada no Instagram. 1,56 m, demasiado fácil. O anão foi mais difícil, passei meses à procura de um. Fui encontrá-lo no Bairro Alto, 1,23 m, encharcado em álcool. Finalmente, crianças. Uma a uma, sem deixar pistas. 1,12 m e 1,07 m, em parques infantis sem supervisão parental. Depois, 0,91m e 0,74 m. Os pais foram danos colaterais.
Hoje, cansado, mas determinado, resta-me a peça final. As típicas matrioscas acabam com a peça mais pequena e sólida da coleção, a única que não é oca. O que me leva à morena de 1,70 m, com ancas boas para parir, que tenho presa na cave desde o ano passado. Foi hoje que as águas rebentaram.
SOBRE O AUTOR
Edgar Ascensão
Desde sempre ligado às artes visuais, foi pintor, designer e videomaker. Argumentista de umas quantas histórias BD publicadas em diversas fanzines, foi também um dos membros fundadores da Take Cinema Magazine. Durante muito tempo, alimentou o seu blog de cinema Brain-Mixer, onde extravasava toda a sua mente cinéfila. Foi aqui que nasceram os Posters Caseiros, cartazes alternativos de filmes.
Ainda gosta de escrever casualmente, entre o terror e sci-fi. Mas vê o futuro dividido, entalado entre as palavras e as imagens, os contos ou os posters.







