Mão na Mão

de Laura Vasques de Sousa

 

Desvio a cadeira com um pé e sento-me. A luz do final da tarde entra pelos vidros sujos da janela da cozinha e incide de soslaio sobre as nódoas de vinho tinto e azeite que decoram a toalha. Os cotovelos apoiados sobre a mesa, a mão dela entre as minhas.

Contemplo-a. Os dedos finos e compridos, a aliança no anelar, as unhas ligeiramente compridas.

As unhas. Começo sempre pelas unhas. Aflige-me a quantidade de porcaria que se acumula por baixo delas em tão pouco tempo. Retiro a maior parte com ajuda de um palito e mergulho-lhe as pontas dos dedos numa taça com água morna. 

Depois, com cuidado e esmero, passo-lhe um lenço humedecido pela pele. A cada dia que passa, noto-a mais fina, mais frágil, friável. Seco-a com a ponta da toalha da mesa e, então, massajo-a com o seu creme preferido. Os intervalos entre os dedos, os nós das articulações, os sulcos das linhas da sina. Todos os relevos e recantos impregnados pelo aroma do creme de amêndoas doces. Este cheiro que me endoidece. O cheiro dela, desde que me lembro. Desde sempre.

Parece ignorar-me, indiferente aos cuidados que lhe presto. Continuo a massajá-la e a envolvê-la entre as minhas mãos, até que perca a frieza em que se encontra.

Fecho os olhos e trago-a até mim. Faço-a deslizar, numa carícia leve e demorada, pelas minhas pálpebras, pelo relevo do meu nariz, pelo bordo da minha língua, pelos meus lábios molhados. Volto a perder-me nela, no aroma doce, no toque suave, dos quais tenho sentido tanta falta. 

O meu amor, sussurro, enquanto lhe beijo as extremidades dos dedos. O meu amor, que quase perdi. 

De imediato, como numa colisão, fico impotente e desgovernado. Recordo-me dos gritos e dos insultos, da noite em que tentara fugir, da intenção vil de me abandonar. Franzo a boca, enraivecido. Ranjo os dentes, abano a cabeça, gemo como um bezerro.

Aperto-a. Sem conseguir parar, aperto-a. As minhas mãos, que tremem pela força que fazem, só se deixam acalmar quando oiço as carnes a desfazerem-se e os tendões a estalar.

No mesmo instante, arrependo-me. Deixo as lágrimas rolarem pela cara abaixo. Soluço, fungo, grito. Peço-lhe perdão outra vez. Como ontem. Como anteontem. Como todos os dias depois daquela noite.

Mão na mão, levanto-me. Abro a porta e saio com ela para o quintal. Contorno a capoeira das galinhas, a casinha das ferragens, percorro o laranjal e detenho-me junto do poço.

Trago o seu dedo indicador até ao canto do meu olho direito, para impedir uma última lágrima. 

Volto amanhã, prometo-lhe na despedida. Pouso-a junto dos restantes retalhos do seu corpo e torno a cobri-los de terra. A terra fria e escura, húmida e teimosa, que lhe tem corroído a pele e entrará, outra vez, debaixo das unhas.

Acocorado, afago o monte que a cobre e sorrio-lhe. Ela arrependeu-se do que me ia fazer. Ela sabe que a perdoei. Tenho a certeza que sim, tenho a certeza que sim.


SOBRE A AUTORA

Laura Vasques de Sousa

Nascida em 1978, por engano, em Lisboa.
Criada na Moita, de onde herdou o sangue, mas não as tradições.
Iniciou os estudos em 1985, por curiosidade própria, e ingressou na escola no ano seguinte, como a lei exigia.
É licenciada em Biologia Aplicada aos Recursos Animais (FCUL) e em Cardiopneumologia (ESTeSL), profissão que exerce.
Pratica regularmente exercício físico, panificação caseira, agricultura de varanda e jardinagem em vaso.
Desde o início desta aventura, esteve rodeada de livros, leituras e escritas, mas apenas depois dos 40 anos teve a lucidez de lhes fazer a vontade.