Monstros de Gelatina

de João Tavares

 

Sentado no banco do parque, espero por ele. O velho estranho que me falou nos monstros de gelatina.

Achei ridículo, mas vi todos os sinais de que ele falou desde então. Pessoas apressadas a esconder as mãos e o pescoço. Notícias de hospitais cheios, com doenças que não fazem sentido. Quero vê-lo de novo para saber mais. Nas raras vezes em que o encontrei, foi aqui.

Absorvo o frio da tarde, vai ajudar-me a suportar o calor infernal da cozinha quando estiver a fazer a hora do jantar no restaurante. 

Olho para o relógio. Está quase na hora de ir. Ao levantar os olhos, vejo-o surgir por detrás das árvores. O velho. Vem a coxear e mais estranho do que é costume. Ao aproximar-se, ouço a sua respiração pesada e ofegante.

— Acabou para mim — disse assustado, arregaçando a manga do casaco. — Vês isto?

Três dedos estavam embrulhados em ligaduras. Pareciam ter metade do tamanho original. 

— Tive de os cortar. Estavam a ficar gelatina… — continuou, com a voz a quebrar —  …mas foi demasiado tarde. — E começou a chorar em desespero.

Não consegui falar. Fiquei apenas ali, à espera de que a minha presença o confortasse.

O velho acabou por se recompor: 

— As dores são horríveis. Sinto os ossos a desfazerem-se dentro do corpo. E a febre faz-me alucinar… Mas não vou ser gelatina! Recuso-me!

— O que é que vai fazer agora? — perguntei, finalmente.

O velho ajeitou a manga e olhou-me nos olhos. 

— Toma conta de ti e da tua família. — E foi embora, continuando o seu caminho.

Não voltei a vê-lo depois disso.

 

*

 

Estou de folga. Aproveito para afiar as facas de casa.

O telefone toca. 

É a minha mulher.

— Ligaram-me da escola. O David está com febre. Consegues ir buscá-lo?

— Claro. Vou já para lá.

— Vou tentar sair mais cedo do jantar. Depois de uns copos de vinho, nem reparam que eu saí. 

— Fica o tempo que precisares. Eu tomo conta dele. 

 

*

 

Já em casa com o meu filho, dou-lhe a medicação. Ele aceita o xarope, com a satisfação que consegue no meio da febre e das dores no corpo.

— Sabe a rebuçado — diz com um sorriso cansado.

— Pois sabe, filho — respondo a sorrir. As crianças pequenas conseguem encontrar algo de bom em tudo.

Sentamo-nos no sofá, a ver televisão, e ele rapidamente tira os ténis e deita-se com a cabeça no meu colo.

Quase na hora do jantar, ponho-lhe a mão na testa. Está a ferver. A medicação parece não estar a fazer efeito. 

— Não me sinto nada bem, pai. 

— Anda comigo.

Levanto-me e preparo um banho tépido. Olho para trás, ele não veio.

Volto à sala; ele continua no sofá. Deito-o nos meus braços e levo-o até à casa de banho.

Dispo-o à pressa e deito-o na banheira. Ele resmunga, mas está demasiado em baixo para fazer birra.

— Está fria, pai.

— Eu sei, filho. Mas vai fazer-te bem.

Algo na perna dele não está bem… está numa posição pouco natural, como se fosse feita de borracha.

Borracha? Apalpo a perna e tento movê-la. Está mole. Mexe-se com facilidade.

Borracha.

Febre.

Dores no corpo.

Está a transformar-se em gelatina! 

Sinto uma dor como nunca senti. 

 

*

 

Ouço um grito. Olho em volta. Estou no sofá. Não sei como aqui vim parar.

Tenho algo pesado na mão. Uma das facas de cozinha… 

Levanto-me em pânico. As minhas roupas estão pesadas, húmidas. 

— O QUE É QUE TU FIZESTE?! — grita histericamente a minha mulher à entrada da sala. Tem a cara em lágrimas, as mãos cobertas de sangue.

A perna. Lembro-me da perna.

Passo por ela e corro para a casa de banho.

E ali está ele. O meu filho. Num banho de sangue. A pequena perna está no chão, cortada. Separada do corpo.

— Gelatina… Ele estava a transformar-se em gelatina… 

A minha mulher está atrás de mim.

— Gelatina?! Gelatina, Fábio?! — A raiva tornava-a quase irreconhecível. — Espera… A tua medicação… Diz-me que tens tomado a tua medicação! — A pergunta chega num tom surpreendentemente preocupado. 

— Não… tenho estado melhor e…

Ela desaba a chorar, e eu apercebo-me. 

Não há nenhum velho…

Ninguém se está a transformar em gelatina…

Eu matei o meu filho…

Olho para baixo. Não consigo olhar para a minha mulher. Não consigo olhar para mim. 

Corro para a sala. Pego na faca ensanguentada. 

Sinto a vergonha.

Sinto a culpa.

Sinto a faca no pescoço.

 

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE O AUTOR

João Tavares

O João é um tipo ligeiramente invulgar.

Tem a sua família como prioridade, a sua filha é a sua maior inspiração.

O João tem vários interesses, entre eles ler e escrever. Não é um apaixonado por terror nem por outros géneros. A paixão poderia limitar os horizontes da sua mente. Mas aprecia muito o terror visceral, que fica a viver livre de renda na mente, a apelar aos medos mais profundos da natureza humana.


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