Nação

De Natanael Santos

 

Avanço no campo de batalha. Sinto um ardor na garganta, um sabor metálico na boca e um suor espesso a escorrer-me na nuca. Os bárbaros são mais ferozes em batalha do que antes e quebraram a nossa formação. Avanço, com o gládio colado à mão, no meio dos gritos e do horror.

Avanço mesmo depois de ter sido obrigado a abandonar o escudo e o pilum. Avanço mesmo sentindo as pernas pesadas. Avanço mesmo estando exausto. Avanço.

Eles continuam aqui. Continuam a segurar-me com as suas mãos pútridas e a tentar arrastar-me com eles. Sinto-os a agarrarem-me as pernas com força. Mas avanço. Avanço porque é o meu dever.

Olho para baixo e vejo umas mãos pequenas a agarrarem-me o tornozelo. Lentamente, surge um rosto redondo, de olhos vazios. Os olhos são escuridão. Eu olho, e ela olha de volta. Estou ainda mais pesado, mais exausto. Mas avanço.

Eles são lemures, espíritos vingativos que não me abandonam e me visitam todos os dias. À noite, visitam o meu leito, rodeiam-me e sentam-se sobre o meu torso, bafejando o seu hálito avernoso na minha cara imóvel. É durante a batalha, no entanto, que se tornam mais ativos. Seguram-me, agarram-me, sussurram-me aos ouvidos nas suas línguas antigas, que fazem lembrar a natureza.

Sei que fui eu que os matei. Ainda assim, deveriam fazer a sua viagem e compreender que o seu sacrifício foi necessário. Pela segurança da Nação, pela glória do Império. Os homens lutam e opõem-se à nossa chegada; as mulheres carregam o mesmo ódio, gerando e criando as próximas gerações de inimigos; as crianças crescem e tornam-se os homens que nos combatem e as mulheres que geram e criam as próximas gerações de homens; os velhos carregam histórias e lembranças, incitando as crianças as combaterem-nos. Então, pela paz, pela Nação, o seu sacrifício é necessário.

Uma velha decrépita segura-me o braço e sussurra-me ao ouvido uma maldição na sua língua, que faz lembrar o restolhar das folhas na floresta. Fá-lo enquanto desfiro um golpe mortal a um homem que poderia ser seu filho. Ela poderia ser minha mãe. Mas a minha mãe está em segurança, em casa, no extremo este do Império.

No passado, também os meus antepassados enfrentaram o Império. O seu sacrifício foi, também então, necessário. É certo que os meus antepassados foram assassinados e torturados, que as minhas antepassadas foram violadas e mortas, que os nossos campos foram queimados e que boa parte das nossas raízes e da nossa identidade foi apagada, bem como as nossas memórias. Mas o Império trouxe-nos civilização, trouxe-nos aquedutos e pontes, trouxe-nos uma identidade maior. Foi necessário, o seu sacrifício foi necessário.

Avanço devagar. Porque eles me arrastam. Mãos ossudas magoam-me as pernas; vozes profundas e ríspidas distraem-me. Ouço o grito desgarrador do centurião. Provavelmente, tombou.

Avanço como posso. Distraio-me por causa deles um instante. O seu peso é insuportável, as suas vozes são ensurdecedoras. Sinto uma dor lancinante na axila. Um bárbaro, um guerreiro, deferiu-me um golpe. Caio de joelhos, sinto a terra por baixo das minhas pernas nuas, ouço a pancada do meu capacete no chão. Sinto dor, sinto calor, não sinto dor, sinto frio. Vejo as copas das árvores, vejo o céu cinzento, sinto a chuva a deslizar-me na face. Nunca mais verei a minha terra, nunca mais verei uma oliveira, nunca mais verei uma seara de trigo em espiga, nunca mais verei a minha Valéria…

Eles rodeiam-me. Não me julgam, não fazem pouco, não celebram, apenas observam com os seus olhos vazios. O pequeno ajoelha-se ao pé de mim e coloca a mão no meu peito, o seu hálito é doce. Parece o meu filho. Que diferença existe entre ele e o meu filho? É o meu filho.

Aguardo pela chegada de Mercúrio. Estou seguro de que chegará em breve e de que me levará para o outro lado. Tornar-me-ei um Lares e protegerei a minha família ou, como recompensa pelo meu serviço ao Império e aos deuses, serei levado para junto de Plutão, no Elísio. Tudo fiz com um propósito, tudo teve um sentido, a minha vida teve um sentido. Foi necessário.

Mercúrio tarda. Porquê? Apenas vejo o rosto do pequeno que me observa com uma expressão serena. A escuridão dos seus olhos invade-me, não vejo nada, apenas sei que o pequeno ali está. Mercúrio não chega, não me leva para junto de Caronte. Não há rio, não há Elísio. Não avanço…


SOBRE O AUTOR

Natanael Santos

Natanael Cardoso dos Santos, nascido em 1999, natural de Castelo Branco e residente em Zebreira, Idanha-a-Nova. Licenciado em Gestão e Contabilidade, Licenciado em Gestão de Recursos Humanos, Mestre em Gestão de Empresas e estudante de Doutoramento em Filosofia.

Autor de Rumo (Astrolábio Edições) e de vários artigos de opinião em jornais e revistas.
Apaixonado por literatura, por filosofia e pelo terror.


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