Naquele Recanto
De Marcos D. Mateus
Quase encostada a um canto na pequena cozinha da Dona Alzira, uma porta de madeira tosca dava para o quintal.
Aberta, deixava entrar a luz do exterior; e, quanto mais forte era a claridade, mais espessa se tornava a sombra que se aninhava atrás dela, naquele recanto anguloso sem uso onde as paredes se encontravam.
Era apenas um beco nas costas da porta, vazio de luz, de sentido.
Dona Alzira não lhe dava atenção, embora, por vezes, pressentisse que ali havia algo de estranho.
Certo dia, enquanto varria a cozinha e escorraçava o pó porta fora, o cabo da vassoura resvalou-lhe dos dedos, indo esta cair no espaço escuro entre a porta aberta e a parede.
Dona Alzira lançou a mão à vassoura e, de imediato, sentiu um frio gélido subir-lhe pelo braço. O ardor era em tudo igual ao que lhe queimava os dedos quando mergulhava as mãos no ribeiro do quintal, nas manhãs plenas de geada.
Alarmada, recolheu o braço e espreitou para trás da porta. Nada viu na sua sombra. Fechou-a então devagar, fazendo com que a luz da lareira iluminasse o canto, e de repente lá estava a vassoura, no mesmo lugar onde, há instantes, podia jurar nada ter visto.
Alguns dias depois, descascava ervilhas na mesa de madeira gasta da cozinha, sob o feixe de luz que entrava pela porta aberta, quando o gato lhe passou junto aos pés, em perseguição de uma traça. Pelo canto do olho, viu o bichano saltar para trás da porta, no encalço do inseto que se escondera pelas sombras.
A velha não fez caso, mas notou que o gato não voltou para junto da panela preta ao lume, o seu refúgio habitual.
Horas passaram até que lhe pareceu ouvir um ligeiro arranhar na madeira. Hesitante, aproximou-se do som que vinha do canto e começou a fechar a porta.
Assim que a luz do fogo iluminou o recanto, o gato saiu de lá atordoado, mas com a traça presa na boca, como se a tivesse acabado de apanhar.
Dona Alzira ficou a cismar naquilo.
Mais tarde, lembrando-se da vassoura que ali caíra, pensou na noite quente em que o marido dissera que ia mijar à latrina do quintal — e desaparecera. Fora dar com ele já de manhã, desorientado, ainda aflito por aliviar a bexiga. Encontrara-o depois de ter ouvido alguns ruídos vindos de trás da porta da cozinha.
Era a primeira vez que lhe ocorria que o marido, meio cegueta, talvez se tivesse enganado em sair para a escuridão da noite, pela porta que ficara aberta para deixar entrar a frescura, e tivesse antes entrado naquele recanto, onde a sombra era igualmente densa.
A remoer naquilo, depois da missa no dia seguinte, Dona Alzira contou à aldeia a sua suspeita — de que as coisas ficavam presas no escuro daquele recanto, atrás da porta da sua cozinha.
Ninguém lhe deu ouvidos. Se uns diziam que estava amalucada, outros riam, achando que era só para ter conversa, por estar sozinha há anos desde que o marido, meio vesgo, caíra de uma ribanceira para a morte.
Irritada por não lhe darem crédito ou consolo, Dona Alzira insultou-os a todos ali mesmo, à porta da capela, gritando-lhes que fossem para o Inferno.
Não muito depois, e ainda antes da hora do almoço, enquanto mexia a sopa ao lume, ouviu uma voz conhecida vinda do quintal a chamá-la.
Era o padre. Decerto vinha para a repreender por ter amaldiçoado as boas gentes da aldeia, para a obrigar a pedir desculpa pelas suas palavras más em solo sagrado.
Sem remorsos nem paciência para sermões, e vendo-o aproximar-se pela porta aberta, Dona Alzira, num impulso, escondeu-se atrás dela.
O padre chamou mais uma vez.
Nada.
Esperou um pouco junto à ombreira, mas apenas o gato foi ao seu encontro.
Não sendo convidado a entrar, o pároco deu meia-volta e foi embora, em busca de conforto para o estômago inquieto.
*
Pela aldeia, corre o dizer de que foi a vergonha a empurrar a Dona Alzira até França, para junto dos filhos. Mas ninguém a viu ou procurou.
Na pequena cozinha da sua casa, há anos abandonada, a panela negra repousa sobre um tripé de ferro, acima das cinzas frias.
O chão está coberto de folhas e pó.
A porta que dá para o quintal permanece aberta, deixando a luz entrar.
Por vezes, um gato ainda ali vai, à procura de abrigo do frio, no cheiro a lenha antiga.
Tudo o resto está parado. E em silêncio.
Naquele recanto, porém, onde a sombra nunca desaparece, o madeiro parece gemer, esperando apenas que a porta se feche.
SOBRE O AUTOR
Marcos D. Mateus
Nascido no Norte, a meio caminho entre as décadas de 70 e 80, começou a viajar ao passado em pequeno, levado pelas histórias que ouvia dos avós. Foi com eles que descobriu o interesse pela escrita. Atualmente, é cientista e professor no Instituto Superior Técnico. Sente-se, acima de tudo, um homem de família.







