No Lago
de João Paulo Francisco
Todos os anos, neste mesmo dia, caminho pela orla do lago.
A onda suave, trazida pelo vento, marca na terra a primeira mensagem. Leio-a:
«Que saudades, meu amor.»
Tento ignorá-la. Sei bem que já não é — e que nunca voltará a ser — a minha mulher.
Logo de seguida, uma outra mensagem:
«Como está a nossa menina?»
Assim que a leio, sinto as entranhas a revolverem-se, o rubor a subir-me à face. É o ódio a apoderar-se de mim e sei que tenho de me controlar. Ela consegue ler-me os pensamentos e perceber as minhas emoções.
«Ainda chateado por a ter tentado devorar?»
Continua a provocar-me… Nunca me vou esquecer daquela noite, o que lhe tentou fazer. Caminho para me certificar de que continua ali, longe de lhe fazer mal.
«Meu amor, estas correntes não me vão prender para sempre.»
Rezo para que isso nunca aconteça, para que as correntes que lhe prendi ao corpo nunca se soltem.
«As correntes vão ceder. Não a vais conseguir proteger de novo.»
Não vou, mas ela vai estar pronta.
«Tu sabes o que a pode salvar.»
…
«Junta-te a mim na obscuridade. Sacia-me.»
Talvez… um dia.
SOBRE O AUTOR
João Paulo Francisco
Nasceu em Lisboa, nos anos 90.
Em criança, o escuro e os pesadelos eram os seus maiores inimigos. Para os enfrentar, mergulhou em filmes, livros e jogos de terror, e, curiosamente, o medo acabou por se transformar em fascínio.
Trabalha na área de IT, mas sentiu necessidade de escrever os sonhos e ideias que teimam em persistir, até ganharem forma no papel.







