Noite de Bruxas

De Lewis Medeiros Custódio

 

A primeira coisa que notei foi o cheiro. Cheirava a fumo. A Lua estava cheia e iluminava toda a aldeia, mas o fumo não deixava ver muito. Foi aí que me apercebi das vozes altas. Não eram gritos, mas protestos inflamados e irados. Virei-me na direcção do som e vi os homens de forquilhas nas mãos, e mulheres munidas com pedras. Até crianças iam em passo acelerado. Segui-os curiosa sobre o que tinha acontecido desta vez.

— Matem a bruxa! Amante do Diabo! — gritavam em uníssono.  Havia um enorme clarão no centro da aldeia para onde estávamos a ir. O fumo ia ficando mais intenso, tal como o odor.

Guiada pelo cheiro a carne queimada e pela curiosidade, aproximei-me da fogueira e vi o corpo já sem vida, de onde a pele caía aos poucos. Era eu.

Ainda hoje me pergunto: «como é que eles descobriram?»

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945

SOBRE O AUTOR

Lewis Medeiros Custódio

Nascido na paradisíaca ilha de São Miguel, nos Açores, foi aluno do Conservatório de Ponta Delgada, onde aprendeu piano. É licenciado em Línguas Modernas e mestre em Ensino pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ser judoca, guitarrista e fotógrafo. Desde cedo, desenvolveu uma paixão pelo terror e pelo macabro, mergulhando nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King. A emoção visceral desse universo tornou-se uma obsessão que contagiou todos os meios que consome — da literatura ao cinema, da música aos jogos.

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