Noite de Cinema
De Guilherme Mouro
Fecho a porta de casa quando acabo de falar com a minha cunhada. Estou exausta, esta semana não me deu pausas. Conciliar o meu trabalho com as buscas não foi fácil. Mas terminou finalmente.
Este fim de semana, ninguém me tira de casa. Já tenho o filme pronto para a minha noite de cinema semanal. Deixo a minha mala no cabide, as compras e os cartazes que a minha cunhada fez na bancada da cozinha. Preparo-me para tomar um banho, longo, quente e relaxante.
Enquanto a banheira está a encher, aproveito para pôr o cesto de roupa suja na máquina de lavar.
Ao começar a tirar as roupas do cesto, vejo a camisa que usei na segunda-feira. Aquela nódoa enorme e carmesim olha-me de volta. Coloco-a de lado para uma limpeza mais profunda, amanhã.
Deixo cair uma bomba de banho para dentro da água e entro também. Passo longos minutos na banheira, apenas a existir, a sentir a água em todo o corpo. Um abraço quente contra a minha pele. A certo momento, a minha mãe liga-me. Pela centésima vez esta semana, asseguro-a de que estou bem, de que estou a lidar bem com tudo, de que não preciso de tirar baixa no trabalho e muito menos de um psicólogo.
Visto o meu pijama mais confortável e, por cima, um robe cor-de-rosa pastel. Estou a ir para a cozinha preparar o jantar quando o telemóvel toca outra vez. É da polícia.
Do outro lado da linha, está uma voz grossa e aconchegante de um rapaz, vinte anos no máximo. Conta-me como novas pistas surgiram e que, na próxima semana, devem ter novidades para mim. Eu agradeço e desligo. Talvez seja algo com que me devesse preocupar, mas não agora.
Ao jantar, tenho uma sensação estranha, a mesma que tive durante toda a semana. Os jantares costumavam ser muito mais ruidosos — e destrutivos. Agora, é estranho estar a ouvir apenas o som da televisão, mas não tenho quaisquer saudades desses jantares.
Finalmente, chegou a hora do filme. Ligo o portátil à televisão, pego nas pipocas e sento-me no sofá enrolada numa manta. Mal contenho a emoção.
Começa comigo muito perto da câmara. Com um sorriso de orelha a orelha. Depois, afasto-me, mostrando o meu marido amarrado a uma cadeira, com uma mordaça.
Dou-lhe um beijo na testa e sorrio-lhe. Caminho para fora do enquadramento da câmara. Quando volto, tenho uma motosserra na mão. Olho para o meu marido a perguntar-me por onde devo começar.
Escolho o braço direito. Aquele que usou demasiadas vezes para me magoar.
Estou sentada no sofá, a ouvir os gritos desesperados vindos da televisão, enquanto o braço direito do meu marido se despede do resto do corpo.
Amanhã, vou ter de desenterrá-lo. Talvez colocá-lo em ácido seja suficiente para que as pistas da polícia não levem a lado algum.
Por agora, no entanto, sinto os ombros a relaxar. O meu corpo afunda-se no sofá e não evito esboçar um sorriso.
O filme ficou perfeito.
SOBRE O AUTOR
Guilherme Mouro
Guilherme Mouro nasceu em 2006 e reside no concelho de Vila Franca de Xira. Estreia-se na escrita, utilizando a ficção como depósito da sua criatividade e como meio para explorar o que de mais perturbador e aterrorizante existe na mente humana. Fascinado pelo lado sombrio da psique, procura, com os seus textos, dissecar medos profundos e contribuir com novas perspetivas para o panorama do terror em Portugal.







