Novos Amigos
de Miguel Ângelo Gonçalves
O papá estava animado quando me entregou o presente, mas a animação morreu quando a mamã viu o que era. Ficou furiosa e com a cara vermelha, mas, ao ver a minha, lá acalmou.
Foi por isso que montei o minhocário no anexo, ao lado das ferramentas de jardinagem da avó Minda. Aqui, ninguém me chateia.
Às vezes, quero mostrar à mamã uma das minhocas, mas ela diz sempre que não quer esses bichos nojentos dentro de casa e faz-me lavar as mãos com água a ferver.
Eu não acho justo. As minhocas são macias, frias e frágeis. E não fazem mal a ninguém.
Passei dias a preparar tudo. Primeiro, pus a terra escura no aquário, daquela que fica pesada depois da chuva. Depois, folhas e galhos. Quando as meti lá dentro, não demoraram muito a fazer túneis para passearem. Ficam sempre a dançar lá em baixo, escondidas pela terra, e quase nunca as vejo. Só as sinto quando encosto a minha orelha ao pé do vidro.
Mas as minhocas queriam mais amigos. Foi por isso que pensei em arranjar um para viver com elas.
Tive de fazer um minhocário maior para viverem todos confortáveis. Usei as ferramentas velhas da avó para cavar um buraco muito maior do que eu, para lhes servir de casa. Quando já tinha tudo pronto, fui procurar o nosso novo amigo. Já o tinha visto várias vezes na escola. Estava sempre sujo e andava com os sapatos descasados. Parecia sempre triste e sozinho, e achei que as minhocas o iam animar, como faziam comigo.
Ainda custou pô-lo dentro do buraco. Mesmo depois de o ter empurrado, quando se dobrou para espreitar as minhocas, ainda se mexia muito e tentava agarrar-me e puxar-me lá para dentro. Também dizia aquelas palavras feias de adulto zangado. O papá sempre disse que não devíamos dizer asneiras. Estava a tentar ser amigo dele, e ele estava a ser mau, por isso tive de lhe bater na cabeça com um ramo, senão a mamã vinha ver o que se passava no quintal e estragava tudo. Tapei-o devagar, para não o magoar. Só parei de lhe pôr terra em cima quando o buraco ficou cheio.
Hoje, quando passei a mão pela terra do minhocário, juro que senti caminhos novos. As minhocas devem estar a fazer túneis por baixo da pele, a entrar por buracos nos dedos e no pescoço, para depois saírem pelo nariz e pelos olhos.
Às vezes, a terra sacode. Acho que as minhocas lhe fazem cócegas, e isso faz-me rir. O que me lembra que há muito tempo que não ouço o riso da mamã.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
Miguel Ângelo Gonçalves
Miguel Ângelo Gonçalves nasceu no Porto, Portugal, nos anos 80.
Cresceu com banda desenhada, livros de fantasia e de terror — bem como filmes — e com bandas de rock.
Desde muito novo que escreve, sobretudo para si próprio, e as suas histórias são uma mistura de terror, thriller e serial killers, com algumas delas a aventurarem-se no espectro sobrenatural do terror.
Passa o seu tempo livre a jogar roleplaying games, a ler e a beber café.
É o autor de The Scarecrow Man, que foi publicado na antologia da Dark Pine Publishing e independentemente como minilivro.
Se estiverem no Porto, é provável que o encontrem num Starbucks a ler ou a rabiscar num caderno.







