O Cadáver Requintado Beberá o Vinho Novo
de Inês B. Lourenço
O plano era este: primeiro, a tarefa individual. Depois, unir as partes durante a assembleia.
«É como um trabalho de grupo da escola, vamos juntar tudo, vais ver, vai ser bestial», explicaram-me entusiasmados. Era a minha primeira reunião com eles e, por isso, estava nervoso.
Tratei de arranjar o fragmento que me competia: o tronco, o elemento de ligação. A parcela na qual se funda e fundamenta toda a experiência delegada em mim? Um leigo, um zé-ninguém? Senti-me honrado.
Cheguei ao local secreto. Bati três vezes à porta. Deixaram-me entrar. Dedo anelar esquerdo no peito direito e «o cadáver requintado beberá o vinho novo», gritei, como me tinham instruído.
«Lê o teu manuscrito.»
Olhei-os, confuso. Abri a grande mala de couro que tinha comprado para a ocasião. Todos largaram as folhas e fugiram horrorizados.
SOBRE A AUTORA
Inês B. Lourenço
Inês B. Lourenço nasceu para lá do Marão, mas não manda nada. O seu ano de nascimento é nome de filme, mas é avessa a qualquer odisseia espacial. Estudou Medicina, mas não era bem a cena dela. Tentou conciliar a pena com o bisturi, mas não é Camões para numa mão ter a lança e noutra a pena. É uma anarquista, mas é muito bem-comportada. Acredita que a escrita de ficção salva, mas não acredita na ficção autobiográfica. Promete que conhece outros conectores discursivos além de «mas».







