O Corpo

de Joana Bastardo

 

Ao entrar, viu o corpo.

A pele marmórea recobria tecidos mais frios do que a mesa de metal que lhes servia de suporte. E ainda sangrava. Um riacho rosado tombava pelo flanco, sobre o chão, alimentando uma poça vermelho-pálido com cada bater do coração moribundo.

Levantou os olhos para o teto e viu a noite encoberta através das comportas escancaradas. A tempestade ainda não chegara, ribombava ao longe, fazendo-se sentir na pele dela antes de ser ouvida.

Aproximou-se, sustendo a respiração para manter o odor putrefacto longe das papilas gustativas. O seu marido aguardava do outro lado da mesa, de olhos postos na forma exânime, como se não a reconhecesse, sem sinal de ter sentido alguém chegar.

Relutante, a mulher devolveu a atenção ao corpo. Uma onda de náusea abateu-se sobre ela, balanceando-a sobre os calcanhares.

Quando fora a última vez que estivera naquela sala?

Decerto não pendiam, então, tão inertes e desconexos, os quatro membros. 

Estendeu dois dedos trémulos e tocou nos que jaziam ao nível da sua anca — os que ela mesma moldara da sua ingenuidade… Jamais os vira raquíticos como agora, as pontas ratadas ao ponto de ver o osso amarelado. O braço que entalhara da sua resiliência reduzido a um toro acinzentado.

Não o poderia ter visto antes.

Eram, contudo, as suas esperanças que o seguravam ao tronco — centenas de linhas descoradas, incapazes de resistir ao tempo.

O lado esquerdo do corpo, ao cuidado do marido, revelava-se ainda pior. A força e o ego do homem que a fitava, do outro lado da mesa… reduzidos a escombros que nem as suas falsas promessas haviam conseguido sustentar.

Com uma lágrima a rolar pelo rosto, contemplou o do corpo.

As íris não eram visíveis, apesar das pálpebras repuxadas, quase sem pestanas. Tinham-se voltado para dentro, em busca de ilusões, quando a realidade se revelara incomportável.

Fora essa a primeira mudança, há tantos anos. Agora, as escleróticas apenas refletiam os clarões da tempestade que se acercava.

Dos olhos, passou para os lábios entreabertos, onde nada havia no lugar que a língua tinha ocupado. Obra do seu marido, que cedo quisera silenciar o que não admitia ouvir.

Uma inspiração agónica soltou-se da cavidade vazia, sobressaltando-a.

Sobre a mesa, com uma convulsão do peito esquelético, o caudal de líquido rosado engrossou por momentos. Antes de afilar e afilar. Até que cessou.

Não!

A mulher atirou-se para a frente, de dedos entrelaçados sobre o esterno, e comprimiu. Mas, em vez de transferirem o seu ímpeto para o coração inerte, as mãos atravessaram a caixa torácica, enterrando-se em algo húmido e esponjoso. Do outro lado da mesa, ouviu-se um lamento animalesco.

Ao recolher as mãos trémulas e ensanguentadas, notou um movimento para a sua direita — na barriga volumosa que, até então, tinha evitado.

Uma agonia farpada atravessou-a, de dentro para fora, ao mesmo tempo que um trovão soava na proximidade.

Não tinha tempo ou os instrumentos necessários, pelo que espetou as unhas na pele acinzentada e puxou. O abdómen abriu-se com um som como tecido a esfarrapar, e um pranto aguçado encheu a divisão.

Tenho de a tirar daqui.

Assim que as suas mãos se prenderam em torno do corpo frágil, as do marido mergulharam dentro do abdómen arruinado e cercaram um dos pequenos braços.

O choro intensificou-se, enquanto outro trovão rebentava, agora sobre eles.

— Larga-a!

— Ela é minha — rugiu a mulher.

Fora o seu ventre que a criara. O seu amor que a nutrira. A sua coragem que a mantivera viva.

Puxou com mais força — tanta quanto se atrevia, perante o toque dos ossos finos contra as suas palmas. Mas um gesto brusco fê-la perder a pega.

Agarrou o que pôde, como pôde.

O outro braço.

Agora, cada um tinha o seu e puxavam em sentidos opostos. O cabelo dourado pendia para um lado e para o outro. O choro era cada vez mais desesperado. Os trovões, cada vez mais ensurdecedores, sobrepunham-se à voz dela:

— É… minha!

Com um som viscoso e doentio, a bebé rasgou-se em dois.

Sem hesitar, a mulher abraçou a sua metade e disparou em direção à saída. Já com a mão na maçaneta, no entanto, deteve-se. Voltou os olhos para o centro da sala.

Ao soar do último trovão, um relâmpago caiu sobre a estrutura metálica, fulgurando o metal ao percorrê-la.

Ofuscada, virou as costas e correu porta fora.

Nada havia para ressuscitar.


 

SOBRE A AUTORA

Joana Bastardo

Joana Bastardo nasceu em 1989, no Porto. Agora médica de família em Vila Real, escreve à margem do quotidiano — em minutos roubados e madrugadas insones. Autodidata, dedica-se à ficção literária e às múltiplas facetas do terror, com uma voz lírica e fragmentária que explora trauma, culpa e identidade. Encontra na escrita uma forma de exorcismo — e de sobrevivência. Entre os seus projetos, destacam-se Linha Vermelha, romance de terror psicológico sobre uma futura cirurgiã em colapso, e Tarot Literário, jornada não linear de uma alma condenada, ao longo de 22 microcontos inspirados nos Arcanos Maiores.

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