O Homem das Promoções
de Teresa Silva
José Matias, de 39 anos, era obcecado por promoções, sempre atraído por aquela palavra vermelha nas etiquetas do supermercado: «DESCONTO». Quando via um cartaz a dizer «LEVE 3, PAGUE 1», o seu coração batia mais depressa. As mãos tremiam. Comprava tudo, de iogurtes, a bolos, a salsichas.
Morava sozinho no quarto andar de um prédio sem elevador. Quando ia ao supermercado, subia as escadas com sacos pesados. O frigorífico ficava cheio, depois a despensa, depois os armários da sala. Depois, o chão.
Havia caixas de comida empilhadas como muros, e ele comia sem parar. Comia para abrir espaço para mais compras.
Um dia, foi à médica de família, que olhou para ele demoradamente, vendo o pescoço inchado, o rosto vermelho, a respiração curta.
— José… — disse ela devagar. — O seu corpo está no limite.
Ele riu-se.
— É só comida, doutora.
Ela pousou a caneta.
— Se continuar assim, pode ter um AVC a qualquer momento.
José encolheu os ombros.
*
Na semana seguinte, o supermercado fez uma campanha gigantesca.
«SEMANA DO DESCONTO TOTAL.»
José comprou carrinhos e mais carrinhos.
Quando chegou a casa, demorou quase meia hora a subir as escadas, em várias viagens. O coração era um tambor, mas conseguiu. Empilhou tudo na cozinha.
Hambúrgueres congelados. Bolos industriais. Litros de refrigerante. A casa ficou intransitável.
*
Nessa noite, acordou com uma dor estranha no braço esquerdo. Sentou-se na cama. Tentou levantar-se e não conseguiu. A boca começou a torcer, a visão a ficar turva. José percebeu o que estava a acontecer. Tentou gritar, mas o som não saiu. Caiu no chão.
Tentou arrastar-se até ao telemóvel… mas havia caixas por todo o lado. Sacos. Garrafas. Embalagens. O ar parecia pesado. O corpo mal lhe obedecia. Até que deixou de obedecer por completo.
*
Os vizinhos começaram a sentir um cheiro estranho. Chamaram a polícia. Quando finalmente abriram a porta do apartamento, tiveram dificuldade em entrar. A casa estava entulhada de embalagens de comida. No meio de uma montanha delas, encontraram José. O corpo estava no chão do quarto. À volta dele, dezenas de pacotes fechados de comida em promoção. A polícia comentou baixinho:
— Tinha comida para meses…
— Sim … respondeu o bombeiro. — Mas morreu de fome.
*
Artur Lopes, o vizinho do terceiro andar, era discreto, reformado dos correios, passava os dias a ler jornais e a ouvir rádio muito baixo. Não conhecia bem José. Sabia só que era o sujeito pesado que vivia acima de si. Encontrava-o sempre ofegante, a carregar sacos de supermercado. Lembrava-se bem da última vez que o vira.
José subia os degraus com quatro sacos enormes.
— Isso ainda lhe dá uma coisa — comentou Artur.
José apenas sorriu, suado.
— São promoções… não posso desperdiçar.
Foi a última conversa.
Agora, Artur espreitava pela porta. Viu bombeiros a descer com uma maca coberta. Um deles disse para o colega:
— Nunca vi uma casa assim… parecia um armazém.
O outro não respondeu.
*
Nessa noite, Artur acordou com um som estranho. Um ruído seco. Vinha do andar de cima. Artur tentou ignorá-lo, mas o barulho continuou. E depois vieram as vozes, como vento a passar por tubos.
Fome…
Artur sentou-se na cama.
— Quem está aí?
Silêncio. Deitou-se outra vez. E então, ouviu claramente:
Ainda temos fome.
*
Nas noites seguintes, os sons repetiram-se. Primeiro, o arrastar de objetos. Depois, embalagens a rasgar. E as vozes, por fim. Artur subiu as escadas para confirmar se havia alguém no apartamento. A fita policial ainda estava na porta. Encostou o ouvido à madeira e ouviu os sussurros do outro lado, por várias vozes ao mesmo tempo.
Temos fome!
Artur recuou imediatamente. Desceu as escadas quase a correr.
Nessa noite, não dormiu.
*
No dia seguinte, Artur saiu para comprar pão. Estava a passar pelo supermercado do bairro quando algo lhe chamou a atenção. A montra estava cheia de cartazes vermelhos.
PROMOÇÃO IMPERDÍVEL! LEVE MAIS! DESCONTOS IMBATÍVEIS!
O coração de Artur gelou. As vozes pareciam sair dos cartazes, do interior do supermercado, das prateleiras recheadas de embalagens.
Nessa noite, as vozes no quarto andar eram altas, atravessavam tudo. E acima de Artur, no escuro do teto, ouviu-se um som seco, como uma embalagem a abrir.
Desde então que os vizinhos notaram que Artur começou a fazer muito mais compras. Veem-no frequentemente a subir as escadas, a carregar sacos, sempre suado e ofegante.
SOBRE A AUTORA
Teresa Silva
Teresa Silva foi professora de inglês durante catorze anos. Sentar-se na secretária era entrar num palco que lhe dava um prazer muito especial. Já escreveu e ainda escreve, tendo também a felicidade de trabalhar em teatro. A sua vida, laboral e pessoal, é construída por todas estas experiências. E assim continuará, por todas as suas recompensas.







