O Homem Ideal
de Miguel Ângelo Gonçalves
César fazia por passar despercebido, era meticuloso nesse aspecto. Seguia cônjuges suspeitos, capturava provas de traição e entregava-as, depois, a clientes desesperados. Havia, no entanto, outra camada sua, mais profunda, que nunca revelava. Guardava cópias para si.
Revivia, deste modo, cada gesto clandestino, cada humilhação. Era o observador perfeito da decadência alheia.
Ou assim pensava.
Os envelopes começaram por aparecer no carro, depois no apartamento, pousados na mesa de entrada. No interior, fichas de arquivo numeradas descreviam os seus métodos com uma precisão quase sobrenatural: a forma como manipulava clientes para obter mais detalhes íntimos, como esperava sempre um pouco mais antes de capturar o acto, para prolongar o seu entretenimento, como repetia as suas gravações favoritas. No escuro. Sozinho.
Cada ficha era também acompanhada por uma nova instrução — e um terror crescente. Pediam-lhe que ultrapassasse limites. Que insinuasse. Que semeasse a desconfiança.
Resistiu.
Acordou uma manhã, a transpirar, no quarto seco e abafado, para encontrar um novo envelope na mesa ao lado da cama. Lá dentro, uma transcrição, palavra por palavra, de algo que ele julgara impossível alguém ter testemunhado.
A partir daí, a resistência provou-se inútil. A pressão pesava-lhe no peito como um animal sentado sobre as costelas.
Foi então que o homem apareceu — do outro lado da mesa do café, com uma chávena a fumegar à frente, como se ali sempre tivesse estado. A luz atrás da figura parecia distorcida por ondas de calor.
— Não tens de te assustar.
O homem tinha uma voz suave, mas implacável. Envergava um fato completo, preto sobre uma camisa branca. O cabelo, também preto, brilhava, puxado para trás com gel. O medo subiu aos olhos de César ao ver um sorriso surgir nos lábios do homem antes que este os tivesse mexido.
— Calma, se te quiséssemos fazer mal… — O homem de fato largou um riso cortado. — Não há nada que já não saibamos sobre ti. Gostaste dos envelopes?
O plural e as suas implicações fizeram dobrar a apreensão de César.
Não respondeu.
— O mais importante é saberes que te compreendemos. Não há mal nenhum no que fazes. Há talento.
César queria falar, mas a garganta traiu-o. O homem, sem se importar, fez deslizar um cartão pela mesa. Nele, apenas duas palavras, gravadas a fogo num branco que feria os olhos: O Arquivo.
Não era a primeira vez que aquele nome atravessava o caminho de César. Houvera rumores, frases suspiradas naqueles momentos em que se pensa que ninguém está a ouvir. Não encontrara, porém, nenhuma prova da sua existência.
Agora, com um representante da organização à sua frente, não só tinha a certeza de que existia como sabia que não era nada do que pudesse ter imaginado: um departamento governamental, uma agência secreta, um mito para os profissionais que trabalhavam na sua área. Isto era diferente. Maior. À parte.
Teve a confirmação quando o homem, ou o que lhe aparecia como um homem, falou novamente, com as pupilas num brilho escarlate sob a luz néon do café.
— Queremos que trabalhes para nós.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
Miguel Ângelo Gonçalves
Miguel Ângelo Gonçalves nasceu no Porto, Portugal, nos anos 80.
Cresceu com banda desenhada, livros de fantasia e de terror — bem como filmes — e com bandas de rock.
Desde muito novo que escreve, sobretudo para si próprio, e as suas histórias são uma mistura de terror, thriller e serial killers, com algumas delas a aventurarem-se no espectro sobrenatural do terror.
Passa o seu tempo livre a jogar roleplaying games, a ler e a beber café.
É o autor de The Scarecrow Man, que foi publicado na antologia da Dark Pine Publishing e independentemente como minilivro.
Se estiverem no Porto, é provável que o encontrem num Starbucks a ler ou a rabiscar num caderno.







