O Homem «Ímpar»

de Francisco Horta

 

Desde criança que Carlos é uma pessoa atormentada. Foge de tudo aquilo que é par. Não por superstição, mas por nojo.

Quando a mãe lhe comprava os lápis para a escola, em caixas de seis, dez ou doze, um impulso obrigava-o a deitar um fora. Abria a janela e atirava um deles para bem longe, tendo depois, várias vezes, por falta da cor original, de pintar um telhado com cor de laranja, ou de azul as folhas das árvores.

Rejeitava, até, convites para jantar em casa dos poucos amigos que tinha, receando uma má disposição estomacal provocada por vinte ervilhas, quatro guardanapos, seis beatas no cinzeiro.

Era por isso que guardava, nas cinco gavetas da mesinha-de-cabeceira, onze meias, três luvas (para não andar com uma mão descalça), entre outras roupas, claro, em números ímpares, sendo que a soma de todas as unidades não podia, obviamente, ser par.

O astigmatismo, afetando-lhe apenas o olho direito, era perfeito, tornando possível e aceitável, para a sociedade atual, o uso de um monóculo. Óculos, nunca. Até o facto de possuir dois braços, duas pernas, duas mãos, dois olhos, duas narinas, dois testículos, referindo apenas o exterior, lhe fazia extrema confusão.

Ainda assim, Carlos era um indivíduo, único, singular, ímpar. Isso dava-lhe uma trégua suficiente.

Carlos apaixonou-se.

Não havia problema.

A paixão era correspondida.

Havia um problema.

No entanto, para cada problema, há, pelo menos, uma solução.

Carlos disse a Amélia:

— Vamos fazer um bebé.

O acordo fora simples: um encontro, dia sim, dia não, até à conceção. Depois do parto, viveriam juntos, os três.

Correu tudo como estava previsto. Até à ecografia.

Gémeas.

Havia um problema.

Gémeas siamesas. Unidas pelo tronco, mas não partilhando nenhum dos órgãos vitais.

Não havia problema.

Todavia, levantaram-se algumas questões filosóficas:

Devemos considerar que uma pessoa é pessoa por possuir um corpo?

Problema resolvido.

Devemos considerar que uma pessoa é pessoa por possuir um cérebro?

Problema não resolvido.

Mas a resposta que Carlos procurava esteve sempre lá: o que importa, concluiu, é o corpo.

A Medicina e a competência médica entregaram-lhe, contudo, um berço de repugnância: as gémeas foram, meticulosa e exemplarmente, separadas após o parto.

Mas não há desafio que Carlos deixe por superar.

Quando chegaram a casa, Amélia, estafada, adormeceu. Carlos, depois de esmagar trinta e três comprimidos de valeriana e de os espalhar na boca de Ana (assim lhe chamou), tirou da caixinha das Butter Cookies uma agulha e sete rolos de linhas. Considerou usar o agrafador, mas, só de pensar nas duas pontas dos agrafos, ficou indisposto. Humedeceu a linha nos lábios e enfiou-a na agulha     .

Assim, de novo, das duas faria uma.

 

SOBRE O AUTOR

Francisco Horta

Francisco Horta nasceu em Vila Franca de Xira, em 1987, e foi criado na Subserra. Sonâmbulo, acordou diversas vezes na pedreira, para lá da serra. Durante o caminho de volta a casa, ouvia sussurros que viriam a inspirar as histórias que escreve. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem como principais influências Richard Matheson e Samanta Schweblin. Vive em Almada, com a mulher e a filha.