O Pacto
de Maria Gaio
O ser original exigia sangue. Descobriu-se mulher e não soube o que fazer com isso. Disseram-lhe que para crescer teria de sangrar.
Pensou recusar partilhar o que de mais nobre tinha, o sangue. Mas o corpo vivia inquieto, num chamamento selvagem, de desejo e curiosidade.
Quis crescer com tudo o que isso implicava.
Debatia-se entre o pudor aprendido e a vertigem do instinto. Diziam-lhe que o sangue era destino, promessa e condenação. Olhava as próprias mãos como se nelas estivesse escrita a sentença do corpo. Ser mulher parecia ser um altar e uma fogueira simultaneamente.
Depois, a água primitiva inundou-a, a provar que o amor era dor. E, ainda assim, entregou-se em nome da multiplicação da espécie. Soube então que dar e repartir exigiam sangue. E, a partir da fonte que um dia sangrou, nasceu toda a vida de todos os seres — numa dor eterna, selada em rubro pacto.
SOBRE A AUTORA
Maria Gaio
Maria Gaio, natural de Leiria, licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, cidade onde reside atualmente.







