O Que o Vento Leva

de Marta Nazaré

 

Enquanto o entardecer se deitava com um pesado manto dourado, um silvo passava leve por entre os exuberantes ramos das árvores. As cores em flores delicadas ensaiavam posições de repouso primaveril, e algumas folhas entusiasmavam-se com a brisa e desprendiam-se, deixando-se ficar a rodopiar, indecisas para onde ir. 

Nesta hora, em que o mundo se aquietava, o Vento do Oeste, escultor de dunas, entrava na mente dos homens. Com a diligência de quem apaga pegadas na areia, Zéfiro encarregava-se de pequenos esquecimentos. 

 

Um guarda-chuva deixado no café numa manhã nublada.

Uma mala que ficara no banco do táxi.

A palavra certa que fugia numa apresentação importante.

 

Zéfiro, por vezes, gostava tanto das memórias que encontrava, que não resistia a deixar vazios maiores. 

 

Um professor que se esquecia da matéria.

Um pai que não se lembrava do nome da filha.

Uma mulher que não sabia voltar para a casa onde sempre morou.

 

Ao despertar da alvorada no mundo dos homens, o Vento do Oeste recolhia-se e sentava-se a escrever nas areias do tempo. Abastecido de memórias de povos, soprava palavras retiradas a quem, verdadeiramente, as tinha vivido. 

 

Redigia conhecimentos contemporâneos e ancestrais. 

Imitava risos e lágrimas. 

Reproduzia o amor e as dores de gerações. 

 

Mas, por muito que escrevesse o que tirara a outros, o falso contador de histórias não podia viver o que não era dele. E à medida que a eternidade avançava, os esquecimentos do mundo criavam vazios pesados dentro de si, que nunca, por mais que tentasse, se preenchiam por completo.

Oco, Zéfiro, escritor de memórias roubadas, apronta-se assim mais uma vez. No entardecer de primaveras de demorada tristeza, o Vento do Oeste parte e vagueia em busca das histórias dos outros, sem perceber que, em vez disso, só precisaria de escrever a sua.


SOBRE A AUTORA

Marta Nazaré

Marta Nazaré, nascida em 1981, formou-se em LLM-I/A e Tradução. Quando não está a escrever contos, traduz livros infantojuvenis e legenda filmes e séries.

Estreou-se como autora na antologia Sangue Novo, tendo, entretanto, participado em diversas publicações.

Tem a certeza de que já foi monstro numa outra vida, mas daqueles fofinhos que decidem contrariar estereótipos e mostrar que estas criaturas (também) têm bom coração. É com ela que todos contam para saber tudo sobre o terror infantojuvenil.

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