O Segredo

de Teresa F.

Guardar segredos é um desafio que poucos conseguem vencer. A sensação de superioridade, obtida por possuir mais informações do que o outro, e a vontade, com ela ligada, de revelação são mais poderosas do que os melhores laços familiares, as mais fortes amizades ou as mais belas histórias de amor. Sendo o segredo filho da verdade, mas sobrinho da mentira, há, sem dúvida, na sua natureza, uma certa ambiguidade. Por um lado, faz a exposição das características fraquezas humanas. Por outro, quando bem sucedido, apresenta uma das mais desejadas virtudes, a lealdade.

Podíamos, agora, começar uma intensa discussão sobre consciência, a imprescindibilidade da verdade ou a honra do indivíduo em comparação com a utilidade à sociedade, mas nada disto seria interessante para descrever a natureza da minha tia Jacinta, a mulher dos segredos. Alguns deles, disso tenho a certeza, mais escuros e turvos do que o vinho, na malga que ela costumava beber ao jantar.

A tia Jacinta tinha os treze anos ainda não cumpridos quando lhe começaram a aparecer nódoas negras no corpo. Ao princípio, ninguém deu muita importância ao assunto. Coisas de miúdas, disseram. Mas já tinha idade para se comportar, disseram. Há coisas do Diabo, disseram.

Da tia Jacinta, nada. Nem queixas, nem culpas, nem explicações de onde, quando ou porquê. Pouco falava, pouco comia, nunca os lábios se elevavam a um sorriso. Olhava triste para o chão, como se ali encontrasse as linhas escritas da razão. A única pessoa com quem ela ainda ia falando, por muito pouco que fosse, era a irmã mais velha, a minha mãe. Assim, a tia Jacinta veio morar connosco — na esperança de melhoras ou, pelo menos, de desvendar o mistério.

A vida na aldeia continuou, inverno ou verão, tal como a vida da minha tia Jacinta. De quando em vez, lá apareciam as manchas no corpo, e ela, como sempre, nada dizia. Os populares começaram a chamar-lhe a menina dos segredos, e as mulheres acharam nela uma ouvinte para as suas próprias confissões. O padre conta a Deus, ela nem ao Diabo, diziam.

Uma noite, em que não conseguia adormecer, ouvi ruídos na parede. Vinham do quarto ao lado, o da minha tia. A curiosidade foi mais forte do que a sensatez. Fui espreitar. Abri a porta devagar, receosa de ver algo que não devia. Ao princípio, só vi a cama, vazia. Ao abrir mais a porta, vi a mesinha de cabeceira e, por fim, a minha tia. Estava de joelhos. Rezava. Por entre as frases indecifráveis, dava murros na parede, onde já se notavam traços de sangue, tal como se notavam fios de lágrimas na cara dela.

— Tia… — disse eu, enquanto me aproximei.

Ela assustou-se e olhou embaraçada para mim.

— Oh, minha querida… não te assustes. Não é nada de mau. Anda cá.

Abraçou-me e depois, com as mãos nos meus ombros, disse:

— Não tenhas medo, já passou.

— Tem a ver com o teu segredo, tia?

— Sim, tem.

— E, porque não dizes o que é? Talvez ajude?

— Não, minha querida. Este segredo levo-o comigo. Agora, não te preocupes e vai-te deitar que já são horas. Desculpa, não te queria acordar. Vá, dorme bem.

Deu-me um beijo e empurrou-me levemente para a porta. Nunca mais falaríamos sobre essa noite.

Anos passaram, e a minha tia tornou-se uma mulher bonita, apesar daquele ar sombrio que carregava. Diria até, a mais bonita das redondezas. No entanto, não havia homem que se interessasse. Ela também pouco se dava a ver. Não se aliciava nem por festas nem por romarias. Tirando a procissão em agosto, onde fazia questão de estar presente, era raro sair à noite. A vida dela era casa e igreja, onde ficava horas a rezar.

Uma noite, o Sr. Duarte, barbeiro, num jantar lá em casa, perguntou-lhe se ela não o queria ajudar. Estava difícil de encontrar rapazes para o ofício, iam todos para a cidade, e ela de certeza que se ajeitava. A minha mãe não gostou da ideia, mas o meu pai, homem realista que era, reparou que estava na altura de a minha tia aprender e trabalhar qualquer coisa, dada a falta de esperança no matrimónio. Um dia tens de te sustentar, porque homens não os vejo aos molhos.

— Se é esse o caminho que o Senhor para mim procurou, assim o farei — disse ela.

Começou a aprender a arte do corte de cabelo, mas sem os diálogos típicos do lugar. Vestia-se de preto e abotoava-se até ao pescoço, para não se notarem os hematomas. Só a minha mãe e, de vez em quando, eu, quando a ajudávamos a lavar, sabíamos que se tinham tornado piores. Muito piores.

Apesar da peculiaridade de se ver uma mulher no barbeiro, o negócio corria melhor do que antes. Os homens gostavam de sentir umas mãos femininas no rosto, na cabeça, no pescoço. Todos a procuravam, menos o padre. Esse achava tudo uma pouca-vergonha. Mas os caminhos que estão escritos são para serem percorridos. O Sr. Duarte cortou-se a fazer uma fisga para o neto, de tal maneira que lhe era impossível trabalhar. Sem alternativa, naquele dia, o padre foi obrigado a ser atendido pela minha tia Jacinta.

— Mas, o Sr. Duarte não pode vir mesmo? — perguntou o padre, bruscamente.

Ela negou com a cabeça.

— Não se pr’ócupe, Sô Padre. A garoupa faz isso bem. — As palavras disse-as o Sr. Gabriel, que lia o jornal de perna cruzada, enquanto esperava a sua vez.

— Então vá, barbeia-me lá. Mas amanhã vens à igreja rezar. Pelos vistos, temos muito que fazer.

Ele sentou-se e ela pôs-lhe a capa, ensaboou-lhe a cara com tempo e pegou na navalha.

— Vá! ‘Tás à espera do quê?

E a minha tia, num movimento seguido, seguro e firme, cortou-lhe o pescoço de orelha a orelha, não deixando de o olhar ao espelho. O sangue jorrou em esguichos pela barbearia e por entre os dedos do padre, que tentava segurar o inevitável. Levantou-se, a cambalear, e escorregou, caindo no líquido viscoso que ainda há pouco lhe pertencia. No chão, os movimentos tornaram-se fracos… A fonte secava.

O Sr. Gabriel estava paralisado, não houve tempo para registar o acontecido. Quando se conseguiu mexer, fugiu a gritar. Dizem que até fez nas calças, o coitado.

As pessoas da aldeia, ao entrarem na barbearia, encontraram a minha tia também no chão. Cortou as veias dos braços, de cima a baixo, e deitou-se, de pernas encolhidas e de mãos juntas. Como a rezar.

No velório, a minha mãe comentou:

— Aquela rapariga… nunca disse nada…

— Disse sim, mãe. Disse sempre que levava o segredo com ela.