O Sol Arde-me nos Olhos
de João Tavares
O sol arde-me nos olhos e no que me resta da pele.
As bancadas de barro e areia vão ondulando numa dança lenta.
Sinto a ferrugem a morder-me os tornozelos e os pulsos, e a mordaça, suja, que me impede de cerrar os dentes. Sinto a carne que rasteja enquanto as térmitas a consomem, debaixo da mistela que a velha besunta quando cá vem.
O fedor a pântano enche o ar, nessas ocasiões, enquanto o toque morno acalma as feridas. Por momentos, então, o vapor tem o perfume de alfazema da minha avó. Também ela cuidava das feridas que eu levava para casa.
O rugido grave do corno quebra o encanto e faz-me vibrar as entranhas. Ao longe, os passos estalam sobre a estrada de pedra e estanho.
Olho em frente. Vómito, sangue e mijo mancham a terra. Evaporam à minha volta. Espero que a morte não tarde…
O estalar das pedras torna-se mais agudo a cada passada. Os cornos surgem no alto. Depois, as máscaras de madeira que cobrem a cara do nariz para cima. A boca e o queixo pintados e os dentes negros estão descobertos.
Três homens descem os degraus, sem pressa. Um deles segura uma pedra escura e afiada. Atrás, vem a velha, sem máscara, com o pote da mistela numa mão e uma folha grande com térmitas na outra. Tem o cabelo apanhado com estacas de madeira, numa bola no cimo da nuca.
O homem da frente aproxima-se. O bafo pútrido aquece-me a face à medida que se baixa para acariciar a corrente. Acocorado, olha-me de alto a baixo. Na máscara, estão desenhados o anfiteatro e as correntes ao centro. À volta, animais de aspecto mítico.
O homem vira-se para trás e solta grunhidos ininteligíveis. Aponta para mim ao dirigir-se à velha. Ela acena sem mudar a expressão.
Focando-se nos outros, gesticula.
Corte.
Baque.
Deslize.
O último procura algo no chão. Os outros trocam de lugar. O que tem a pedra afiada aproxima-se. Baixa-se para cumprir o ritual da corrente.
O braço sobe. A pedra aterra com um baque abafado acima do meu joelho. Rompe-me a pele. Prende-se na carne. O homem puxa-a na saída.
A mordaça contém a agonia que detona dentro de mim.
Acabada a carne, chega ao osso. Os meus dentes vibram ao ritmo da pedra, como se mil garfos raspassem um vidro.
O que vasculhava o chão aproxima-se com uma pedra maciça nas mãos. O chão estremece quando a pousa. Passa a mão na corrente.
Depois, levanta a pedra sem esforço acima da cabeça. A ponta maior aponta para baixo. A pedra desce contra o osso exposto.
Um ramo grosso e seco parte-se.
Tombo e balanço nas correntes. O estômago dá voltas sem encontrar o que expelir.
Os ouvidos apitam. Os olhos cegam.
*
O sol arde-me nos olhos.
Uma folha verde envolve-me a coxa. A pele rasteja e arde acima do que resta do joelho.
Ainda aqui estou…
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
João Tavares
O João é um tipo ligeiramente invulgar.
Tem a sua família como prioridade, a sua filha é a sua maior inspiração.
O João tem vários interesses, entre eles ler e escrever. Não é um apaixonado por terror nem por outros géneros. A paixão poderia limitar os horizontes da sua mente. Mas aprecia muito o terror visceral, que fica a viver livre de renda na mente, a apelar aos medos mais profundos da natureza humana.







