Odeio Manhãs
de Martim Maria Ramos
As manhãs? Cheiram a morte, que cheira a podre com um toque adocicado. Talvez seja a adrenalina em decomposição que, na noite anterior, me bombeava no sangue. Agora, nas veias, corre apenas vergonha e culpa.
Procuro os caninos com a língua, mas não estão lá. Em vez deles, está o inconfundível sabor metálico do sangue, que estranho cada vez menos. Tenho uma ferida bastante feia no ombro, mas nenhum osso partido desta vez.
Não reconheço esta mata — devo estar longe da herdade e perto de pessoas. Mas quão perto? Um insistente toque de telemóvel responde-me. O estômago vira-se do avesso e os joelhos enfraquecem. Nu e ansioso, sigo o som até ao riacho.
O telemóvel deve estar debaixo dos corpos rasgados e trucidados, que roí como um cachorro. É impossível contar quantos são, ou perceber-lhes o sexo. Deduzo apenas pelas camisas que fossem escuteirinhos.
Odeio manhãs. Odeio esta maldição.
SOBRE O AUTOR
Martim Maria Ramos
Nasceu em Cascais, mas foi criado em Mem Martins. A mãe ensinou-o a respeitar os livros. A prima Catarina obrigou-o a gostar de terror — e ainda hoje não vê um filme sem uma almofada. A professora Antonieta, no terceiro ano, disse-lhe que poderia ser o que quisesse, mas que acabaria por ser escritor. Por agora, é geólogo, nas minas de Aljustrel, e é nas galerias escuras do submundo que tem as suas melhores ideias.







